Paternidade: o que muda na carreira dos homens que se tornam pais?

Ricardo Callado3 de junho de 20199min

Por Marcelo Olivieri

cid:image002.jpg@01D4A29D.F2CD8F30Ninguém duvida que a carreira é um caminho indispensável para a felicidade. Muito mais do que uma fonte de renda, o trabalho é uma forma importante de realização. É nele que concretizamos projetos, que nos desenvolvemos como pessoas e aprendemos, além de entregarmos valor para o mundo. Contudo, nossa vida pessoal nunca deve ser deixada de lado.

Infelizmente, muitas mulheres acabam perdendo espaço nas empresas quando se tornam mães. Já para os homens, o movimento é oposto. O mercado entende que o profissional que se torna pai vai se dedicar ainda mais, afinal ele agora terá mais gastos com a família e precisa se dedicar para ser promovido e crescer profissionalmente. Um pensamento um tanto quanto machista.

Recentemente, uma pesquisa qualitativa feita pelo Boston College Center for Work and Family, nos Estado Unidos, revelou que a maioria dos profissionais acredita que a paternidade foi positiva para a ascensão na carreira. É como se a paternidade fosse a porta de entrada para o mundo dos homens maduros, confiáveis e responsáveis.

Ainda que timidamente, as novas gerações estão transformando suas relações com a paternidade e maternidade. Enquanto nossos pais e avós viveram uma paternidade um pouco mais distante da rotina de cuidados com os filhos, hoje, muitos homens querem vivê-la de maneira presente e constante, assim como as mães. A minha experiência pessoal foi de viver a gravidez da minha esposa ao lado dela, participando de maneira ativa das escolhas que fizemos, de todo o processo de mudança e transformações que tivemos que viver para receber nossa filha. A gestação foi um período de preparação para ambos, não apenas para minha esposa. Durante a amamentação e puerpério – nome dado a fase pós-parto em que a recém-mãe experimenta modificações físicas e psíquicas – eu também estive presente, por mais que sendo homem eu não pudesse oferecer  leite a minha filha, eu estava acordado a cada mamada, trocando as fraldas, pondo para arrotar, dando banho, fornecendo o que quer que fosse para que as duas estivessem bem e saudáveis. Tenho certeza que a minha decisão, participação e experiência reflete uma mudança importante de comportamento de toda uma geração.

Os papéis culturais estão se transformando. Hoje a minha filha tem pouco mais de um ano e eu e a minha esposa dividimos igualmente os cuidados em relação a ela, eu particularmente, faço questão de estar presente na consulta com o pediatra, dedicar tempo diário à minha filha, estar presente nas decisões importantes, ter cuidado e carinho para fazer escolhas por ela. A partir do momento que eu me tornei pai eu entendi de forma mais clara o quanto era importante transformar também a minha relação com o trabalho.

Do ponto de vista da produtividade, precisei aprender a fazer mais em menos tempo. Afinal, madrugar no escritório se tornou algo impensável e me obrigo a chegar em casa todos os dias antes dela estar dormindo. Ao mesmo tempo, eu ainda preciso entregar resultados para a empresa e tenho metas escaláveis e agressivas para cumprir. Portanto, a produtividade se tornou o fio condutor do meu dia a dia. Evito ao máximo perder tempo com o que não é realmente importante. Entendi que o resultado e a conclusão dos projetos fazem mais sentido do que o tempo que você passa no escritório.

A organização e o planejamento também se tornaram algo obrigatório, tanto no trabalho quanto em casa. Cumprir os horários à risca, ser proativo frente aos desafios, fazer as coisas com antecedência, planejar e executar o planejamento, se tornaram parte do meu dia a dia. Um filho nos mostra o quanto não temos controle sobre nada. Os imprevistos são inerentes. Eles acontecem sempre e, por menores que possam parecer, são capazes de colocar tudo de pernas para o ar.

Também aprendi a compartilhar melhor o meu trabalho com a equipe. Todos precisam estar preparados para me substituir a qualquer momento. As coisas não podem depender de mim e, prepará-los para esse desafio, é uma responsabilidade minha. Aprendi a importância de ser um líder que delega e que prepara os funcionários para esses momentos de ausência. O mesmo deve acontecer em casa. Algumas tarefas domésticas precisam ser executadas por outras pessoas de confiança nos momentos em que os compromissos de trabalho são inadiáveis. Quando bem administrado, tudo funciona.

Sempre percebi muita compreensão das pessoas quando precisei desmarcar compromissos na última hora. Isso foi algo que me surpreendeu positivamente. A maioria dos profissionais, sejam clientes, parceiros ou candidatos que entrevisto, também tem filhos e vivem os mesmos dilemas. Desde que as entregas estejam sendo feitas com qualidade, tudo flui. As pessoas entendem que você tem responsabilidade sobre a vida de alguém e que isso é algo grandioso e inegociável.

E, apesar de todos os percalços da paternidade, minhas ambições de carreira não mudaram em absolutamente nada. Eu ainda desejo conquistar os mesmos objetivos profissionais, ainda me interesso pelos mesmos projetos e me dedico às minhas metas com a mesma garra e empenho. A paternidade, assim como a maternidade, só exigem uma boa dose de planejamento e força de vontade. No final, tudo sempre acaba bem e no final do dia, independentemente de como tenha sido os desafios do meu trabalho, ao chegar em casa e ver minha filha correndo em minha direção com um sorriso largo no rosto, é algo que me recarrega e me mostra que todo o meu esforço e adaptação são retribuídos nesse único instante.

Marcelo Olivieri é bacharel em psicologia e possui MBA em Gestão Estratégica. Com mais de 10 anos de experiência no recrutamento especializado nas áreas de marketing e vendas, Olivieri é headhunter diretor da Trend Recruitment.

Ricardo Callado


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