PAIS SEPARADOS E O NATAL

Ricardo Callado26/11/20196min

Por Renata Bento

O Natal é a celebração do nascimento e da união, simbolizado pela família. É o momento da expressão mais genuína da tradição familiar; aquele dia em que se tenta materializar as idealizações acerca do que cada um espera dessa data. Mas como passar por isso e sobreviver quando a sua própria família acaba de desmoronar?

Quando se tem filhos pequenos, o primeiro Natal após a separação fica com ar meio nebuloso, esquisito, como se algo tivesse errado ou faltando. Monta ou não monta a árvore de Natal? E a ceia?

Natal faz lembrar criança; por conta de todo ritual e da crença imaginativa do Papai Noel; e criança faz lembrar a nossa criança, aquela que reside dentro de cada um de nós. E é nesse ponto que parecer tocar mais profundamente; a criança interna, muitas vezes projetada nos filhos, está entristecida; e administrar o mundo externo passa a ser um dilema. Porque parece que a sua família sumiu e que agora se encontra perdido(a) no mundo. Não tem mais aquela família, e é estranho regressar à família de origem. É como se ficasse em um estado de transformação.  Aceitar a tristeza e aguardar a passagem do luto é essencial para superar esse momento de transição. Mas as crianças pequenas precisam desse simbolismo, isso faz bem a elas. Separar dentro de si um espaço para pensar sobre isso sem se misturar seu sofrimento com os filhos é um desafio.

As celebrações de final de ano são permeadas de muita emoção onde os sentimentos ficam mais aflorados e as pessoas ficam mais sensíveis, sobretudo nas semanas que antecedem o Natal. Evitar conflitos em situações em que as pessoas estão emocionalmente envolvidas muitas vezes é difícil, porque de um lado pode se ter a expectativa de harmonia familiar, mas, por outro lado, pode anunciar problemas emocionalmente desgastantes, além do aparecimento de sentimentos que outrora pareciam enterrados, mas que ressurgem com força total, virando muitas vezes uma ‘lavação de roupa suja’.

 Para grande parte das pessoas, celebrar o natal, pode ser um momento de alegria, para outros, esse período é tão mobilizador que acaba por evidenciar as relações conflituosas; uma delas diz respeito a dificuldade encontrada nos pais para se estabelecer um parâmetro sobre a divisão da convivência com os filhos nesta época, após a separação do casal, que, em algumas situações é necessário uma intervenção judicial.

A comunicação é a base da relação entre as pessoas, mas, nem sempre o ex casal consegue ter equilíbrio para conversar, ajustar e muitas vezes ceder em suas expectativas. Ficam frustrados, competem pelo número a mais de dias que porventura os filhos ficarão com o outro, principalmente quando é o primeiro Natal após o divórcio.

É possível usar a criatividade, e por exemplo, planejar um Natal antecipado para celebrar a união, aquela que é para sempre, já que não existe ex filho (a). Puxar a criança como se fosse um cabo de guerra destrói emocionalmente a capacidade de confiança e segurança nos pais e no seu entorno. Caso fique com os filhos no Natal, também será um momento de celebrar.

 As crianças quando tem pais mais amadurecidos tendem a atravessar o divórcio dos mesmos de forma menos dolorosa. A criança sentirá a dor de não estar na convivência de ambos nessa data tão familiar, mas, se se os pais se abrirem ao diálogo, explicando como se dará a divisão de convivência, é bem possível que se sintam menos inseguras e mais compreendidas. Evitar disputas e buscar uma convivência equilibrada favorece o amadurecimento dos filhos.

RENATA BENTO – Psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e famÍlia. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada a IPA – Internacional Psychoanalytical Association, a FEPAL – Federación Psicoanalítica de América Latina e a FEBRAPSI – Federação Brasileira de Psicanálise     

Ricardo Callado

Jornalista, blogueiro, escritor e consultor político. Exerceu a função de secretário de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal. Foi Diretor de Redação do Grupo Comunidade de Comunicação – responsável pelos jornais da Comunidade e O Coletivo. É autor do livro PANDORA – e outros fatos que abalaram a política de Brasília.


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