Modelo de financiamento eleitoral no Brasil é ineficaz, aponta estudo da FGV e da Fundação BRAVA

Ricardo Callado13/05/20198min

Luís Roberto Barroso, ministro do STF, e Letícia Piccolotto, presidente executiva da Fundação Brava, destacaram os impactos da tecnologia no pleito de 2018 e a importância de uma reforma política que aumente a representatividade e barateie as eleições

Muito se discute acerca do modelo ideal de financiamento de campanhas no Brasil. Fato é que o funcionamento do nosso sistema político ainda deixa a desejar. Para avançar na compreensão desse contexto, as Fundações Getúlio Vargas (FGV) e Brava lançam nesta segunda-feira (13), em São Paulo, o estudo “Os Custos da Campanha Eleitoral no Brasil: Uma análise baseada em evidência”.

Com o objetivo de contribuir para o debate público e fortalecer a democracia, a pesquisa é baseada em três pilares: a influência do dinheiro nos resultados eleitorais; o percentual dos recursos de campanha que não foram declarados à Justiça Eleitoral; e como a legislação brasileira sobre financiamento se comparara com a adotada em outros países.

O estudo traz como análise as candidaturas presidenciais e para deputado federal, uma vez que a eleição desses representantes tem sido o objeto da maioria das propostas de reforma política. Ao mesmo tempo, detalha os métodos de persuasão da era digital e o protagonismo da tecnologia na redução dos gastos eleitorais.

De 1994 a 2014, as eleições se tornaram cada vez mais caras e, ao mesmo tempo, o financiamento eleitoral foi se concentrando principalmente em poucas empresas ou grupos empresariais, responsáveis por doações milionárias e com interesse direto em licitações, regulações ou benefícios fiscais concedidos pelo Estado. Por outro lado, o financiamento predominantemente público pode levar à formação de partidos “estatais”, onde a garantia dos recursos reduziria o interesse em buscar o apoio financeiro dos eleitores para a campanha eleitoral.

A pesquisa mostra que a tecnologia teve papel fundamental na redução do gasto dos candidatos. De acordo com o levantamento, as despesas dos eleitos em 2014 com publicidade e operações foram de aproximadamente R$ 600 e R$ 300 milhões. Em 2018, os valores caíram consideravelmente, chegando a R$ 450 e R$ 180 milhões, respectivamente, uma redução total de mais de R$ 250 milhões.

De acordo com Letícia Piccolotto, presidente executiva da Fundação Brava, um avanço já consolidado entre a opinião pública é o benefício que a tecnologia trouxe, tanto para a transparência no uso dos recursos como na redução dos custos das campanhas. “Ferramentas como o crowndfounding permitiram em 2018 que a sociedade se sentisse participativa do mandato. O debate fundamental que temos que fazer daqui para frente é como a tecnologia pode continuar impactando de forma democrática o processo eleitoral brasileiro”, afirma.

Para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, o Brasil precisa de uma reforma eleitoral que permita aproximar os cidadãos da política. “O sistema funcional mal e temos que repensá-lo. O mais importante neste momento é fortalecer a democracia incentivando a participação das pessoas físicas no processo eleitoral”, falou. Segundo ele, o próximo sistema eleitoral deve ser baseado em três pilares: “aumentar a representatividade do parlamento; baratear o custo das eleições; e facilitar a governabilidade”, concluiu Barroso.

Depois de passar pela primeira eleição geral financiada exclusivamente com recursos públicos e de pessoas físicas, o Brasil estuda novas alterações nas regras do pleito. Uma alternativa apontada pelo levantamento são os chamados “matching funds”. Nessa estrutura, o poder público complementa as pequenas doações recebidas de pessoas físicas. Na Alemanha, por exemplo, o Estado paga € 0,38 para cada € 1 recebido de cidadãos que doarem até € 3.300. Mecanismo semelhante também acontece nos Estados Unidos, ou seja, os partidos políticos são incentivados a mobilizarem pessoas para que façam pequenas doações.

George Avelino, pesquisador da FGV e responsável pelo estudo, analisou o sistema de financiamento e fez uma previsão da próxima reforma eleitoral. “Em resumo, houve queda na concentração de recursos, mas o cenário ainda não é o ideal. A gente conseguiu melhorar razoavelmente a competitividade, mas não podemos implementar um novo modelo mais justo e democrático”, concluiu Avelino.

Acesse aqui a íntegra do estudo “Os Custos da Campanha Eleitoral no Brasil: Uma análise baseada em evidência”.

 

Sobre a Fundação BRAVA

A Fundação Brava é uma organização sem fins lucrativos que desenvolve e apoia iniciativas de impacto para contribuir com o desenvolvimento do Brasil. Fundada em 2000, já apoiamos mais de 50 projetos e instituições visando o bem público. Ao longo dos últimos anos, a organização apoiou mais de 30 projetos em administrações municipais e estaduais brasileiras – trazendo melhorias para áreas como educação, segurança, gestão e equilíbrio fiscal.

A Brava é apoiadora do BrazilLAB, hub que acelera ideias e conecta empreendedores com o poder público. O objetivo do BrazilLAB é estimular, no Brasil, uma cultura voltada para a inovação nesse setor – e fazemos isso apoiando empreendedores engajados em buscar soluções para os desafios mais complexos vividos pela sociedade atual.

Ricardo Callado

Jornalista, blogueiro, escritor e consultor político. Exerceu a função de secretário de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal. Foi Diretor de Redação do Grupo Comunidade de Comunicação – responsável pelos jornais da Comunidade e O Coletivo. É autor do livro PANDORA – e outros fatos que abalaram a política de Brasília.


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