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Governo tem que esquecer ideologia e investir na qualidade da educação, diz Izalci

Ricardo Callado10/04/201912min
Izalci Lucas é autor do projeto da Escola sem Partido na Câmara dos Deputados, foi presidente da comissão da reforma do Ensino Médio e integrou a comissão que elaborou o Plano Nacional de Educação. (foto Jeferson Rudy/Agência Senado)

Senador que era cotado para o MEC critica influência de Olavo de Carvalho e radicalismos no governo

Por Grasielle Castro (do HuffPost Brasi) – Autor do projeto de lei de 2015 que prevê a criação do programa Escola Sem Partido, uma das propostas encampadas por Jair Bolsonaro desde a campanha, o hoje senador Izalci Lucas (PSDB-DF) critica os radicalismos que rondam o Ministério da Educação no atual governo.

Mesmo tendo sido um dos patrocinadores em Brasília da eleição de Bolsonaro,  o tucano critica os desmontes no MEC e a queda de braço entre os grupos que dominam a área, assim como a influência de Olavo de Carvalho, guru ideológico do governo.

“Você viu todos esses esses debates aí, essas polêmicas que foram feitas sobre [o golpe de] 64, sobre o Hino Nacional. (…) Umas coisas ridículas, da forma como foram colocadas”, disse Izalci em entrevista ao HuffPost. “Você cria uma polêmica de um jeito que parece até que esse era o grande problema da educação no Brasil. Tem que ter foco.”

O senador era um dos nomes preferidos da bancada evangélica para substituir Ricardo Vélez no comando do Ministério da Educação, mas o nome escolhido por Jair Bolsonaro, e anunciado na última segunda-feira (8), foi o de Abraham Weintraub, outro professor com perfil ideológico semelhante ao de indicados por Olavo de Carvalho.

Tem que deixar essas questões supérfluas de lado e investir no principal, que é a qualidade.Senador Izalci Lucas

Izalci negou ter se reunido com Bolsonaro no fim de semana e afirma que, na transição, houve interesse da bancada evangélica em apoiar seu nome. Izalci é católico, mas ressalta que há interesses semelhantes entre as duas religiões. A indicação não foi para frente, e uma das barreiras apontadas foi o veto do PSDB, que tem afirmado que não pretende fazer parte do governo.

Para Izalci, a educação é um tema suprapartidário. Mas ele não esconde o incômodo e até um “racha” do PSDB sobre a gestão de Bolsonaro. O senador também discorda que seja interessante negociar com as bancadas temáticas, como Bolsonaro priorizou no início do governo. “Aqui [no Congresso] não se trabalha com frente, se trabalha com partido. Quem define trabalho nas comissões é o partido.”

Leia os principais trechos da entrevista.

HuffPost Brasil: Nesta segunda-feira, o ministro Ricardo Vélez foi demitido após 3 meses de caos na gestão da educação. Na sua opinião, o que deveria mudar na condução do ministério?

Izalci Lucas: Fiz um discurso no Senado no qual li um trecho do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, que já reclamava que 43 anos atrás não se priorizava a educação. Há aproximadamente 135 anos o discurso é exatamente o mesmo. É só uma referência para ver o tanto que estamos defasados. O discurso ainda é o mesmo. A gente tem que avançar muito. Participei do debate tanto do PIB para educação, do Pronatec, dos royalties do petróleo, fui também presidente da comissão da reforma do Ensino Médio, do Plano Nacional para a Educação. A gente trabalhou durante esse tempo todo. É evidente que a gente tem que cumprir pelo menos as metas, como o plano para educação integral. A gente não atingiu esse percentual até hoje. A qualidade é fundamental, o que não existe mais. A reforma do Ensino Médio veio na linha para que o jovem consiga ingressar no mercado de trabalho. Tem muito jovem que não estuda nem trabalha. Valorizar, inclusive, a questão do empreendedorismo para os jovens poderem criar novos negócios. Acho que tem que deixar estas questões supérfluas de lado e investir no principal, que é a qualidade.

Izalci em encontro em março com Bolsonaro e os senadores Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), Eduardo Gomes (MDB-TO) e Elmano Férrer (Podemos-PI), Chico Rodrigues (DEM-RR), além do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. (Marcos Corrêa/PR)

A que o senhor se refere quando fala em “questões supérfluas”?

Você vê as polêmicas que foram criadas nos últimos meses. O cara tem que olhar para frente, não dá para ficar olhando para trás, não dá para ficar falando… Você viu todos esses esses debates aí, essas polêmicas que foram feitas sobre [o golpe de] 64, sobre o Hino Nacional. Um negócio assim… Umas coisas ridículas, da forma como foram colocadas. Uma coisa tão natural, tão normal botar o Hino Nacional, aí você cria uma polêmica de um jeito que parece até que esse era o grande problema da educação no Brasil… Tem que ter foco.

Você cria uma polêmica de um jeito que parece até que Hino Nacional era o grande problema da educação no Brasil.

A gente precisa buscar um financiamento adequado para valorizar as instalações, que são péssimas; colocar tecnologia, internet, computador nas escolas. É preciso realmente dar uma formação melhor para os professores, restabelecer agora com a reforma do Ensino Médio, aquele que acho que foi um erro muito grande, que foi acabar com o curso normal. A gente está muito atrasado, tem que avançar.

Como o senhor avalia a influência de Olavo de Carvalho no MEC?

A educação nesse momento tem que ser tratada como um assunto suprapartidário. Tem que ter um movimento em prol da educação independentemente de questão partidária e ideologia. Todo mundo tem que caminhar para mesma direção. O problema é que há alguns grupos, cada um puxando para um lado. Isso aí atrapalha qualquer projeto. Torço para que a coisa funcione. Há uma preocupação muito grande com o andamento do ministério. A gente precisa ter muito cuidado para não deixar que as coisas fiquem para cima da hora. Tem uma série de coisa em cima da hora, como o Enem, que não dá para brincar.

O problema é que há alguns grupos, cada um puxando para um lado. Isso aí atrapalha qualquer projeto.

Como tem sido a relação do PSDB com o governo?

O PSDB sempre defendeu e vai continuar defendendo as reformas. Mesmo na época em que a gente era oposição, a gente avançava. Era um assunto suprapartidário. O que era bom, a gente aprovava. Depois que o PT virou oposição, começou a mudar o sistema. A declaração do PSDB que foi dada na reunião [com o presidente Jair Bolsonaro no início de abril] é que o partido não faria parte do governo. O próprio [ex-presidente] Fernando Henrique, a posição que o Geraldo Alckmin [presidente do PSDB] levou foi a de não participar do governo, mas educação está acima de tudo isso.

Não teria nenhuma inconveniência em ajudar, porque isso aí é irrelevante, educação é uma questão suprapartidária.  É óbvio que se você está no partido, tem que ouvir. A posição do PSDB é continuar lutando pelas reformas, não só a Previdência, como Tributária, evidentemente que sugerindo mudanças. O PSDB não abre mão do BPC (Benefício de Prestação Contínua), da aposentadoria rural… Tem uma série de coisas que precisam de melhora no texto.

Qual a resistência do PSDB em fazer parte do governo, em se assumir como base?

O PSDB tinha candidato próprio nas eleições. No segundo turno, houve um racha. Alguns apoiaram a oposição, outros ficaram neutros. Eu particularmente, em Brasília, apoiei o Bolsonaro. O Doria, em São Paulo, também. A questão não foi discutida, nem votada na Executiva. Como estamos passando por um processo de eleição interna, há perspectiva de mudanças.

Pode-se dizer que a bancada evangélica é base do governo?

Não… As frentes, sejam evangélica, da agricultura ou da segurança pública, são em cima de um tema de todos os partidos. Aqui [no Congresso] não se trabalha com frente; trabalha-se com partido. Quem define trabalho nas comissões é o partido. Tem gente na frente evangélica que não é base, que é de partido que não é governo. A frente é suprapartidária no tema que interessa a ela, mas não se pode dizer que é base. Eu diria que a maioria hoje é base.

Ricardo Callado

Jornalista, blogueiro, escritor e consultor político. Exerceu a função de secretário de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal. Foi Diretor de Redação do Grupo Comunidade de Comunicação – responsável pelos jornais da Comunidade e O Coletivo. É autor do livro PANDORA – e outros fatos que abalaram a política de Brasília.


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