Entrevista Marília Higino | “A vacinação é a forma de prevenir e acabar com a cadeia de transmissão”

Ricardo Callado18/10/201917min
Marília Higino (Foto: Acácio Pinheiro/Agência Brasília)

Médica pediatra da Subsecretaria de Vigilância em Saúde fala sobre os cuidados e prevenção contra a doença, que é altamente contagiosa e ainda está em circulação

Por Lúcio Flávio

Criado nos anos 1980 pelo artista plástico Darlan Rosa, o Zé Gotinha foi de garoto propaganda contra a poliomielite a ícone nacional da vacinação. Difícil alguém não associar sua forma branca e simpática com qualquer campanha de prevenção às doenças no Brasil. O personagem surgiu com o objetivo de conscientizar os pais e as crianças sobre a importância da vacina. Uma mensagem que ganhará peso simbólico neste sábado (19), em todo o país, com o Dia D de Mobilização Nacional Contra o Sarampo. Desde o dia 7 deste mês que os postos de saúde em todo o Brasil estão mobilizados em torno da ação. Só no Distrito Federal, serão mais de 60 unidades abertas.

Doença viral infecciosa transmissível e altamente contagiosa, o sarampo, ao contrário do que muitos pensam, não é uma “doença de criança”. Ele atinge adultos, também. Embora não tenha um caso registrado no DF desde 1999, a enfermidade continua em circulação. Daí a importância de se prevenir e estar sempre alerta. Os principais sintomas são febre alta, manchas vermelhas pelo corpo e tosses. “A taxa de infecção, de contagiosidade do sarampo é bem alta. A vacinação é a única forma de prevenir e acabar com toda a cadeia de transmissão”, assegura Marília Higino de Carvalho, médica pediatra e gerente de Vigilância das Doenças Imunopreveníveis e de Transmissão Hídrica e Alimentar da Secretaria de Saúde (Gevitha).

Essa primeira fase da campanha tem como público-alvo crianças entre seis meses e cinco anos. Em novembro, entre os dias 18 e 30, haverá uma segunda fase para os adultos jovens, que têm entre 20 e 29 anos. Em entrevista à Agência Brasília, a médica pediatra falou sobre os sintomas e complicações da doença, as formas de transmissão e a importância de mobilizar a sociedade sobre o tema.

O programa nacional de imunização do Brasil é o maior do mundo. Não existe em nenhum outro lugar um programa de imunização que ofereça tantas vacinas gratuitas para a população. O Brasil é referência nesse campo.

Qual a importância de se vacinar?

A vacinação é a única forma de combater as doenças imunopreveniveis e acabar com toda a cadeia de transmissão, evitando doenças, complicações, sequelas e morte. Trata-se de um método eficaz e seguro. O programa nacional de imunização do Brasil é o maior do mundo. Não existe em nenhum outro lugar um programa de imunização que ofereça tantas vacinas gratuitas para a população. O Brasil é referência nesse campo. Por exemplo, não temos circulação de muitas doenças devido ao sucesso das vacinações. Mas, para que isso permaneça, precisamos que os pais e responsáveis levem as crianças para vacinar e atendam o chamamento das campanhas.

O sarampo é uma doença viral aguda ainda em circulação. Quais são os sintomas e as complicações?

É uma doença infecciosa aguda causada por vírus, cujas manifestações clínicas são febre e exantema (manchas vermelhas no corpo), acompanhadas por outros sintomas, como tosse, coriza ou conjuntivite. Normalmente, inicia-se com febre alta que dura entre três e cinco dias, depois vem o surgimento de exantema que se inicia no rosto e atrás das orelhas, se espalhando pelo corpo. A tosse, a coriza e a conjuntivite normalmente vêm no quadro inicial da febre. Pode manifestar fotofobia, adinamia e prostração. Se após manchar o corpo a febre persistir por mais de três dias, isso já pode ser um sinal de alerta, de que pode estar acontecendo uma complicação. As principais complicações são pneumonia, otite (infecção no ouvido), meningite viral e, em casos mais graves, a longo prazo, a panencefalite esclerosante.

Como são as formas de transmissão?

A transmissão acontece por vias respiratórias, como ocorre com a gripe, quando uma pessoa fala, tosse, espirra ou respira perto de outras pessoas.

Existe um tratamento para o sarampo?

Não há nenhum tratamento medicamentoso específico, apenas sintomático.

Quem pode vacinar contra o sarampo? Ou seja, qual é o público-alvo?

Devido ao aumento do número de casos de sarampo em alguns estados, as crianças entre 6 meses e 1 ano devem receber a dose zero. A primeira dose da tríplice viral deve ser administrada aos 12 meses de idade e a segunda, com 15 meses. Os indivíduos até 29 anos devem ter duas doses de tríplice viral e as pessoas entre 30 e 49 anos devem ter uma dose da vacina comprovada. Quem já tem a comprovação das doses conforme faixa etária não precisa de dose extra. Na situação epidemiológica atual do sarampo, o Ministério da Saúde instituiu a realização de campanhas de vacinação em 2019. A primeira fase da Campanha Nacional contra o Sarampo tem como público-alvo crianças de seis meses a até 4 anos, 11 meses e 29 dias. E o Dia D que é o dia da Mobilização Nacional, ocorrerá neste sábado (19). A campanha é seletiva, não está sendo feita dose extra. Logo, apenas as crianças que ainda não têm o esquema completo de duas doses, e as crianças de seis meses a 1 ano incompleto, ou seja, que não completaram um ano ainda, que geralmente não são vacinadas na rotina são o público-alvo dessa fase da campanha. Em novembro, entre os dias 18 e 30, ocorrerá a segunda fase da Campanha Nacional, direcionada para os adultos jovens (faixa etária de 20 a 29 anos). O dia de mobilização nacional na segunda fase ocorrerá em 30 de novembro.

Grávidas podem tomar vacina contra o sarampo?

Durante a gravidez está contraindicado a vacinação com a Tríplice Viral. O que se recomenda é que mulher em idade fértil vacine antes de engravidar ou logo após o nascimento do bebê. Também se recomenda não engravidar nos 30 dias após a vacinação.

A Secretaria de Saúde vem trabalhando nas redes sociais, compartilhando material sobre os assuntos da área. E cada região de saúde elabora plano local de trabalho. Em algumas delas, nos períodos de campanha, utiliza-se carro de som, entrevistas em rádios comunitárias, com apoio das igrejas e escolas.

A Secretaria de Saúde quer aumentar a prevenção contra a doença. Quais são as principais ações da pasta para mobilizar a sociedade?

Desde 2017, a Subsecretaria de Vigilância em Saúde emite alertas para os profissionais de saúde e população sobre o risco de reintrodução do vírus do sarampo e orienta a sociedade a manter o cartão de vacina atualizado. A Secretaria de Saúde vem trabalhando nas redes sociais, compartilhando material sobre os assuntos da área. E cada região de saúde elabora plano local de trabalho. Em algumas delas, nos períodos de campanha, utiliza-se carro de som, entrevistas em rádios comunitárias, com apoio das igrejas e escolas. Também é feito um trabalho nos postos de saúde. Os agentes comunitários, durante as visitas domiciliares, checam os cartões e orientam quanto a necessidade de vacinação. Nessa campanha, a estratégia que o Ministério da Saúde adotou foi a de convocar os pais e responsáveis para atualizarem o cartão de vacina das crianças. Essa primeira fase da campanha começou com as crianças porque são elas que estão mais suscetíveis a adoecer e evoluir com complicações e óbito. A prioridade é vacinar principalmente as crianças. Esse é o nosso foco nessa primeira fase da campanha.

O que é a Tríplice Viral e qual a sua função?

A vacina tríplice viral é uma vacina de vírus vivo atenuado e apresenta três componentes. Ela protege contra sarampo, caxumba e rubéola.

O que é a dose zero?

Dose 0 é a dose destinada aos bebês maiores de 6 meses de idade até um ano incompleto. Depois de um ano essa criança vai vacinar normalmente na rotina. Chama-se dose 0 por não ser considerada uma dose válida para rotina do calendário vacinal. Então com um ano e com 15 meses a criança tem que ser vacinada novamente.

As pessoas tendem achar que sarampo é uma doença de criança, mas é um equívoco, certo?

O sarampo pode atingir qualquer faixa-etária. A partir de 1992, foi pactuado com a Organização Mundial de Saúde um plano de erradicação do sarampo. Daí, foram feitas várias campanhas, a cada três anos, quando ocorre a vacinação indiscriminada de criança com menos de cinco anos de idade. Foi quando começou a haver um controle maior da doença e, a partir dos anos 2000, praticamente não tivemos mais casos de doentes em residentes no Brasil. Os casos que surgiram foram relacionados à importação. A partir de 2013 e 2014, começaram a ter surtos isolados em alguns estados. Primeiro, aconteceu em Pernambuco e, depois, no Ceará. Em 2018, com a vinda dos imigrantes venezuelanos para Roraima, começou a ter novo surto na Região Norte que atingiu o Amazonas. O surto durou mais de um ano, com casos importados pontuais em outros estados. Em junho deste ano, começou novo surto em São Paulo com repercussão e ainda vigente, com casos consideráveis em curto período de tempo. Nesse surto iniciado em Roraima e Amazonas, foram 10.300 casos confirmados de sarampo. No Brasil, de 7 de julho a 29 de setembro deste ano, tivemos 5.404 casos confirmados de sarampo (conforme o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde). Toda essa situação de surto ocorre em decorrência da cobertura vacinal para tríplice viral, que está abaixo da meta do Ministério da Saúde.

Existe resistência dos pais para vacinar os filhos?

No Brasil, não há estudos concretos sobre as causas dos pais e responsáveis não levarem as crianças para vacinar. Um dos problemas é o acesso às vacinas, apesar de estarem disponíveis na unidade de saúde. A maioria dos pais trabalha integralmente e os horários de funcionamento das salas de vacinas muitas vezes não são compatíveis com os deles. Outros pais ou responsáveis não levam porque acham que o sarampo é uma doença boba, alguns até acham que não existe mais. O fato de o sarampo ficar tanto tempo sob controle, sem aparecimento de casos, fez com que a população, de certa forma, acreditasse que isso não iria mais acontecer. Mas, diferente da varíola, o sarampo não foi erradicado. Ele passou a ser eliminado da região das Américas com certificado a partir de 2016. Em todas as outras regiões do mundo continua ocorrendo. Nossa preocupação é manter as coberturas vacinais contra o sarampo elevadas para que a doença não retorne, com todas as suas complicações.

Existem quantos postos de vacinação no DF?

Mais de 60 unidades vão abrir neste sábado (19), no Dia D de Mobilização Nacional, das 8h às 17h, ininterruptamente.

Quem já teve sarampo precisa se vacinar de novo?

Consideramos a pessoa vacinada quem tem como comprovar que recebeu a vacina. Por isso, é importante guardar o cartão de vacinação. Ele é um documento, um comprovante de que a pessoa já foi vacinada um dia. Se o adulto está em dia com seu cartão de vacinação ele só vai precisar vacinar-se a cada dez anos. Se você teve sarampo, isso não significa que você teve caxumba e rubéola. Por isso que é recomendável tomar a Tríplice Viral.

Ricardo Callado

Jornalista, blogueiro, escritor e consultor político. Exerceu a função de secretário de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal. Foi Diretor de Redação do Grupo Comunidade de Comunicação – responsável pelos jornais da Comunidade e O Coletivo. É autor do livro PANDORA – e outros fatos que abalaram a política de Brasília.


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