ENTREVISTA || “Brasília precisa ser resgatada”, diz Jofran Frejat ao Agenda Capital

Ricardo Callado29/09/201716min

Jofran Frejat abriu as portas do seu escritório político no centro de Brasília, para atender a redação do Agenda Capital. Nesta entrevista exclusiva, fala da possibilidade de concorrer ao governo do DF em 2018

Por Delmo Menezes – Eleito por 05 vezes Deputado Federal, Frejat até hoje é o recordista em mandatos pelo DF, tendo participado como constituinte, na elaboração da Carta Magna de 1988. Na pasta da Saúde, o médico/gestor foi por 04 vezes secretário de saúde. Nas eleições de 2014 faltando pouco mais de 40 dias para o pleito, torna-se postulante ao GDF, em substituição à ao ex-governador Arruda que foi impedido pela justiça. Frejat obteve 27,72% dos votos válidos no primeiro turno, e 44,44% dos votos válidos no segundo turno, sendo derrotado pelo então senador Rodrigo Rollemberg.

Nesta entrevista exclusiva ao Agenda Capital, Jofran Frejat (PR) fala abertamente sobre seus projetos políticos, sobre a pasta da saúde e avalia que o “recall” da última eleição, seja importante para concorrer ao governo do DF em 2018.

Veja entrevista na íntegra:

Como o senhor avalia o atual quadro político nacional em tempos de Lava Jato?

Há uma descrença nacional em relação aos políticos e a tendência é de se generalizar. Se existe um grupo de políticos que eventualmente se envolvem em irregularidades, acaba que a população fica imaginando que ninguém presta, o que não é realidade. Tem muita gente de altíssima qualidade, e lamentavelmente uns ou outros mancham a imagem da classe se envolvendo com ilícitos, contaminando assim todo o ambiente e opinião pública. Hoje há no meu entendimento, uma resposta negativa em relação a aprovação dos políticos pelo povo.

Os políticos de um modo geral não estão sendo bem avaliados pela população. Tem como reverter este quadro? 

A tendência nossa como disse anteriormente, é generalizar. Vou te dar um exemplo. Se você vai a um hospital e é mal atendido pela pessoa que está na portaria, você já começa a dizer que este hospital não presta. Se você vai à Câmara Federal ou ao Senado, e não é atendido naquilo que imagina que é bom para a população, a tendência é coletivizar. A mesma coisa ocorre com a corrupção. Hoje vemos que existem pessoas envolvidas em corrupção como foi mostrado pela operação Lava Jato. O resultado é uma grande rejeição que se verifica na classe política. Há uma tendência de não acreditar nas lideranças, o que é um equívoco. As vezes se imagina que alguém que não é político e aparece como um “salvador da pátria”, um “outsider”, um “novo”, e achamos que poderá dar certo. Isso não é verdade. Que tal se a gente colocar um político que não tenha se envolvido em irregularidades?

Apesar de ser ainda muito cedo, algumas pesquisas nos mostram que mais de 70% da população não sabem em quem votar. Como o senhor que é um político experiente avalia esta situação?

É uma pena que as pessoas se decepcionem com os candidatos. Bons tempos aqueles nos quais política e moral se confundiam. Hoje já não é assim. Você vê pessoas que não tem nenhuma representatividade, se tornam celebridades, e vão fazer política. Não sei se esse é o melhor caminho. No meu entendimento o correto é que as pessoas escolham seus candidatos, porque no momento em que você delega a escolha de seus representantes, se dá espaço para gente que não tem nenhum compromisso com você. É preciso lembrar que político é aquele indivíduo que quando você vota nele, quando você escolhe ele, ele vai te representar. Ele vai discursar por você, ele vai dar opiniões pensando no cidadão. Eu não gostaria de ver pessoas que não me representam, dando opiniões que absolutamente não corresponde à verdade. Essas coisas precisam ser colocadas claramente para a população, que está desestimulada, não acreditando no meio político. Os políticos são importantes, agora é preciso de uma boa escolha. Não se trata de apoiar alguém porque lhe deu uma cesta básica, fez um favor ou outro, isso não funciona. Isto é um “toma lá dá cá”. As pessoas devem ser imbuídas do espírito de moralidade e seriedade.

O senhor foi quatro vezes secretário de Saúde numa época em que a população do Distrito Federal era bem menor do que a de hoje que é de 3 milhões de habitantes. O que fazer para reverter a situação crítica em que se encontra a rede pública de saúde? O problema é somente falta de recursos financeiros?

Não com certeza não. Até porque o orçamento da Secretaria de Saúde aqui no Distrito Federal, é maior do que o orçamento da saúde do Rio de Janeiro, e maior do que todo orçamento do estado de Alagoas. Portanto tem recursos bastante razoáveis. O que estamos vendo é um grave problema de gestão. Não sei se você lembra na época do debate dos candidatos ao governo do DF. Teve alguém que disse assim; “poxa Frejat no tempo em que você foi secretário o máximo que conseguiu colocar na Secretaria de Saúde foi 2 bilhões de reais, e nós aqui conseguimos colocar 5 bilhões de reais”. Aí eu disse, pois é, se eu com 2 bilhões de reais fiz todos os Centros de Saúde, o Hospital de Ceilândia, o Hospital do HRAN, o Hemocentro, o Hospital de Apoio, o Bloco Materno Infantil – HMIB, o Hospital do Paranoá e a faculdade de Medicina do DF, imagina se eu tivesse 5 bilhões o que não faria. Acontece o seguinte, não aumentou a rede, a população quase triplicou, e não vimos nenhum hospital novo. Os Centros de Saúde cresceram muito pouco, houve o aparecimento das UPAS, mas em compensação, fecharam o sistema de atendimento em cada Centro de Saúde. Esse tipo de coisa tem que ter uma racionalidade. Cresceu o setor privado. Na nossa época o setor privado claudicava, funcionava muito mal. Os pacientes optavam pela rede pública. Os próprios médicos diziam sempre; “se tiver um acidente me leve para o hospital de Base”. “Se minha mulher foi ganhar bebê, me leve para o HMIB”. Os meus filhos nasceram lá naquele hospital. Você vê o HRAN que inauguramos, e a situação em que se encontra hoje. Era um hospital modelo, bonito, hoje infelizmente está com vários problemas. Isso é o que? Nós não temos mais a quantidade de médicos que tínhamos, não temos um sistema de atendimento dentro da atenção primária que seja eficiente, o sistema de referência se perdeu ao longo dos anos.

O senhor quer dizer que foi desmantelado todo o sistema de saúde que foi implantado na sua época?

Ah sim, ele não está funcionado. Criamos os Centros de Saúde para o paciente ser atendido perto de sua casa. Hoje você vê um paciente que mora em Planaltina e é atendido no Gama, por exemplo. Assim não pode funcionar.

Como o senhor avalia a atual gestão do governo Rollemberg?

Já me fizeram esta pergunta antes, e eu prefiro dizer que “enxergo de óculos”.

Na sua avaliação, ainda existe aquela divisão de ideologia como nos tempos do ex-governador Roriz e a esquerda?

Essa divisão esquerda-direita, praticamente desapareceu. Isso surgiu há muito tempo atrás, na Assembleia Francesa. Veja o que aconteceu com a esquerda no mundo. A União Soviética acabou, virou a Rússia. O que temos de esquerda hoje é somente a CUBA, a Venezuela e a Coréia do Norte. Por que outros países importantes que funcionam bem, como a Suíça e a Finlândia, não vão para a esquerda. Será que é por estupidez deles? Eles viram que quando você tira a competividade do ser humano, você liquida o sistema. Esse negócio de ser assistencialista para todo mundo não funciona. Você tem que dar chance para as pessoas crescerem, para elas se desenvolverem. É isso que elas precisam.

O senhor acredita que as principais lideranças de centro-direita irão caminhar juntas nas eleições de 2018 no DF?

É sempre muito difícil você ultrapassar a preocupação pessoal. Existe a questão do egoísmo de cada um, a vontade de cada um. Tem gente que se acha capaz de administrar, e nós já vimos os erros que aconteceram em várias épocas. É possível até que andem juntas. Não descarto nem a possiblidade de uma parte da esquerda andar junto com a direita, porque tem muita gente mudando de ideologia partidária. O que era esquerda do passado, agora quer ser de centro ou direita. Até eu brinco com algumas pessoas sobre esta questão de ideologia. Eu pergunto, se colocar um Centro de Saúde do lado de sua casa é ser de direita ou esquerda? Se você colocar nos Centros de Saúde as gestantes, para ser bem atendidas e bem orientadas, ensinando a amamentar, criar em todos os hospitais banco de leite humano, isto é ser de esquerda ou ser de direita? Se você colocar ressonância magnética no Hospital de Base, é de direita ou esquerda? Então é difícil se fazer esta avaliação.

Alguns pretensos concorrentes ao Buriti tem afirmado que pela sua idade, deveria concorrer ao Senado. Se houver união em torno do seu nome, mesmo assim abriria mão de concorrer ao governo?

Eu não faço mais nenhuma questão de fazer política. Eu já disse isso várias vezes. Eu acho que Brasília precisa ser resgatada. Se o meu trabalho, a minha competência, a minha seriedade, permitir que eu possa ir para o executivo, eu vou para o governo. Se não me permitir, eu vou ficar em casa, e tenho certeza que minha família vai ficar satisfeitíssima com esta decisão.

Na eleição passada o senhor ficou em 2º lugar na disputa para o GDF, com pouco mais de 40 dias de campanha. O tempo foi o principal obstáculo de não sair vitorioso?

É uma pergunta difícil. Eu sei que em aproximadamente 40 dias de campanha, cheguei a ter 650 mil votos, com 44% dos votos válidos. E hoje meu nome está em evidência. Considero que por esse “recall” da última campanha, temos uma importância fundamental. É isso. Meu trabalho na área de saúde que infelizmente foi desconstruído, e naturalmente meu nome limpo. Esses elementos são fatores que influenciam a população, tanto é, que nas pesquisas apareço bem classificado. Agora é difícil dizer se ganharia a eleição, porque o tempo da minha campanha foi muito curto, e essa dificuldade pesou de certa maneira.

Para finalizar, o que diria à população do Distrito Federal neste momento de crise?

Não perca a esperança. O Distrito Federal é maior do que nós todos. A gente tem que lutar para conseguir que Brasília seja resgatada, seja melhorada, que Brasília volte a ser a capital da esperança, porque nós estamos perdendo a esperança nesta cidade. As pessoas de fora que não conhecem a cidade, têm a tendência de colocar nossa cidade como centro da corrupção. E muita gente vem de fora fazer os malfeitos no DF. Brasília é uma cidade de trabalhadores, gente competente, séria, que construiu esta cidade. Eu tenho a honra em dizer que fiz parte deste grupo que construiu Brasília.

Da Redação do Agenda Capital

Ricardo Callado

Jornalista, blogueiro, escritor e consultor político. Exerceu a função de secretário de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal. Foi Diretor de Redação do Grupo Comunidade de Comunicação – responsável pelos jornais da Comunidade e O Coletivo. É autor do livro PANDORA – e outros fatos que abalaram a política de Brasília.


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