Efeitos psicológicas da alienação parental

Ricardo Callado22/05/20197min

Por Renata Bento

É muito comum em processos em Vara de Família observar filhos de pais em litígio ou divorciados sofrerem alienação parental por parte de um deles, ou seja, quando um dos genitores, ou ainda quem tem a guarda ou da tutela da criança, faz pressão para que ela tome partido de um lado, destruindo a imagem do outro e causando angústia e insegurança.

 A título de esclarecimento é relevante explicitar que a Alienação Parental pode ser observada também em situações em que o casal não está separado, mas neste caso, pode não ficar tão evidente ou pouco se falar a respeito, uma vez que todos ainda convivem sob o mesmo teto. Em situações como esta, a Alienação Parental não é deflagrada ou discutida porque a criança ainda não é objetivamente ou legalmente objeto de disputa entre os pais, ou seja, as brigas ainda estão no domínio doméstico do casal. Com alguma frequência se percebe, ao analisar através dos estudos periciais, os casos de separação litigiosa ou divórcio, que aquela queixa atual de que um dos cônjuges promove Alienação Parental, já poderia ter sido observada anteriormente, mas não havia na ocasião esta percepção. Ou seja, na reconstrução da história pregressa daquela família, através da perícia, se observa que a queixa é atual, mas o problema é antigo; o modo como a família convivia já demonstrava sinais disfuncionais. E que no momento da ruptura conjugal deflagrou.

Os efeitos psicológicos da Alienação Parental tem sido material de discussão e preocupação entre os saberes da Psicologia e do Direito, justamente porque os riscos são muitos. A criança que cresce sendo objeto de disputa e tendo que escolher emocionalmente seu cuidador pode apresentar uma série de dificuldades emocionais.

É importante mencionar que a alienação parental pode ser experimentada pela mãe ou pelo pai, e não somente pelo pai (homem), embora seja mais observável.  Sabe-se que pai e mãe são o primeiro suporte emocional para toda criança. Sendo assim, a família é considerada núcleo básico essencial e estruturante do sujeito. Como fica isso para a criança em meio a disputa judicial?

No Brasil, desde agosto de 2010, a alienação parental é definida por lei (Nº 12.318, ago/2010). No Art. 2º da Lei, “Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou o adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou a manutenção de vínculos.

Observamos, tanto na experiência clínica quanto nas avaliações para o judiciário, uma série de buracos emocionais no mundo psíquico dessas crianças e jovens; em uma época de suas vidas onde a estabilidade emocional oferecida pelas funções parentais deveria estar presente como alicerce, mas não estão. A perícia psicológica é um exame delicado que se desenrola através da investigação clínica da personalidade associada à análise dos fatos concomitante a dos sujeitos com base nos aspectos psíquicos e subjetivos, iluminando pontos conscientes e inconscientes do funcionamento mental dentro da dinâmica emocional, experimentada nas relações entre as pessoas.

O que se observa em estudos periciais ou em atendimentos de crianças em processo de guarda é que na medida em que os pais conseguem diminuir as desavenças entre eles, e passam a respeitar a criança como tal, e a proporia relação deles como pais,  a criança começa a apresentar uma melhora emocional significativa.  O que quero dizer, é que o estado emocional da criança vai depender e muito do modo como os pais manejam a separação conjugal, como eles lidam com suas funções parentais.Em situações em que através de uma perícia a Alienação Parental fica comprovada, algumas medidas deverão ser tomadas pelo magistrado para proteger e fazer valer o melhor interesse da criança. Essas medidas podem ser variadas, desde o encaminhamento para atendimento psicológico, ao manejo da convivência com o alienado, até a perda da guarda da criança. Cada caso será avaliado individualmente.

Renata Bento é psicóloga, psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada a IPA – Internacional Psychoanalytical Association, a FEPAL – Federación Psicoanalítica de América Latina e a FEBRAPSI – Federação Brasileira de Psicanálise.

Ricardo Callado

Jornalista, blogueiro, escritor e consultor político. Exerceu a função de secretário de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal. Foi Diretor de Redação do Grupo Comunidade de Comunicação – responsável pelos jornais da Comunidade e O Coletivo. É autor do livro PANDORA – e outros fatos que abalaram a política de Brasília.


One comment

  • Ednei José Dutra de Freitas

    21/06/2019 at 07:17

    O DUPLO REGISTRO DE MEMÓRIA NA ESPÉCIE HUMANA

    *Ednei José Dutra de Freitas, MD , PhD

    PREÂMBULO

    Neste artigo, mostro que não há o chamado “livre arbítrio” em nossas
    vidas e em nossas escolhas porque temos, os humanos, um Segundo
    Registro de Memória, que rege o nosso destino, sem que disso saibamos
    porque é uma Memória aprisionada no nosso inconsciente, e por causa
    disso não temos livre arbítrio para fazer nossas escolhas, e muitas
    vezes repetimos escolhas erradas, tais como a escolha de cônjuges que
    se mostram catastróficas na vida conjugal, mas não aprendemos com a má
    experiência e repetimos novas escolhas erradas de cônjuges que repetem
    conosco uma nova e péssima relação conjugal.

    Este Segundo Registro de Memória, que rege o nosso destino sem que
    disso saibamos, não pode ser evocado pela nossa consciência, motivo
    pelo qual repetimos nossos erros e não aprendemos com nossa
    experiência de vida. Salvo se nos submetermos a um rigoroso processo
    de psicanálise, que pode decodificar para nós este registro
    inconsciente. Este registro de memória é aprendido e apreendido por
    nós sem que saibamos que o estamos aprendendo e repetindo erros
    vivenciados por nossos ancestrais ou de nosso meio social, erros de
    destino que nossos ancestrais também ignoram que possuem mas nos
    transmitem informalmente.

    Assim, para mais outro exemplo, como eleitores, votamos em maus ,
    incompetentes e corruptos políticos, repetidamente, e que sempre nos
    levam ao desencanto, porque sempre somos enganados por promessas
    falsas ou pelo populismo. Todavia, quando chegam novas eleições
    políticas, votamos novamente nestes políticos, cometendo os mesmos
    erros, ou então em outros políticos com os mesmos defeitos
    anti-patrióticos e desonestos.

    Os dois exemplos dados acima são apenas uma gota d’água, entre
    miríades de outros erros que praticamos, guiados por uma memória
    reacionária e repleta de mitos errados, malfazejos, uma memória
    transgeracional, uma memória que para nós é totalmente desconhecida.
    São estes dois exemplos uma gota d’água dentre o Oceano de erros que
    praticamos, sem saber que somos guiados e compelidos a “escolher”
    nosso destino por força de mitos cruéis, contidos nesta Memória.

    O DUPLO REGISTRO DE MEMÓRIA

    *Ednei José Dutra de Freitas, PhD

    INTRODUÇÃO

    O artigo que ora apresento contém uma descoberta de um duplo registro
    de memória na espécie humana. Como toda descoberta este artigo deve
    ser fundamentado com a Epistemologia que, infelizmente, ainda
    engatinha no Brasil.

    Por tal razão sinto que será útil introduzí-lo somente após levar ao
    leitor uma noção necessária e suficiente do que seja Epistemologia, o
    que facilitará o entendimento e colocará o artigo à prova, como tudo
    deveria ser feito em Ciência, sob as diretrizes epistemológicas de
    Karl Popper expostas a seguir. Para a Epistemologia são fundamentais
    as noções filosóficas do que seja objetividade e subjetividade, razão
    porque começo meu arrazoado sobre epistemologia abordando estes dois
    conceitos fundamentais.

    OBJETIVIDADE E SUBJETIVIDADE

    A conceituação filosófica dos termos objetividade e subjetividade foi
    especialmente trabalhada por Kant (8), que usa a palavra “objetivo”
    para indicar que o conhecimento científico deve ser justificável,
    independentemente de capricho pessoal. Uma comunicação, uma
    descoberta, serão objetivas se puderem, em princípio, ser submetidas a
    prova e compreendidas por todos. Diz Kant (8):”: Se algo for válido
    para todos os que estejam na posse da razão, seus fundamentos serão
    objetivos e suficientes”. Aplica a palavra “subjetivo” para os nossos
    sentimentos de convicção (de vários graus). Estes sentimentos surgem,
    por exemplo, de acordo com as leis da associação, acrescentando ainda
    o filósofo que “razões objetivas também podem atuar como causas
    subjetivas de juízo, à medida que possamos refletir acerca dessas
    razões, deixando-nos convencer de seu caráter racionalmente
    necessário”. Popper (10), por sua vez, sustenta que as teorias
    científicas nunca são inteiramente justificáveis ou verificáveis mas
    que, não obstante, são suscetíveis de se verem submetidas a prova. Em
    consequência, a objetividade dos enunciados científicos reside na
    circunstância de poderem ser intersubjetivamente submetidos a teste.

    Em seu livro, citado na bibliografia(10), Popper reconhece que Kant
    foi “talvez o primeiro a afirmar que a objetividade dos enunciados
    científicos está estreitamente relacionada com a elaboração de
    teorias- com o uso de hipóteses e de enunciados universais…Só quando
    certos acontecimentos se repetem, segundo regras ou regularidades, tal
    como é o caso dos experimentos passíveis de reprodução, podem as
    observações ser submetidas a prova -em princípio- por qualquer pessoa.
    Na teoria popperiana, por este denominada “Teoria do Método Dedutivo
    de Prova”(10), uma hipótese só admite prova empírica – e tão somente
    após haver sido formulada. O trabalho do cientista consiste em
    elaborar teorias e pô-las a prova. Com isso ele quer dizer que “o
    estágio inicial, o ato de conceber, criar ou inventar não reclama
    análise lógica nem dela é suscetível, só importando a justificação de
    validade (o quid juris?, de Kant)”(Popper) (10). Afirma ainda este
    filósofo que não existe um método lógico de conceber idéias novas
    porque toda descoberta encerra “um elemento irracional ou uma intuição
    criadora, no sentido de Bergson”. Indo além, Popper afirma não haver
    enunciados definitivos em ciência, o que concorda com Kant, pois a
    coisa em si, a verdade absoluta, é incognoscível, sendo o conhecimento
    em ciência sempre aproximativo e passível de ser mudado. Errar em
    ciência é inevitável.

    Em Psicanálise, o desenvolvimento científico não é diferente das
    demais ciências, não havendo desacordo com os critérios filosóficos de
    Kant e Popper. A realidade de que a Psicanálise pode tomar
    conhecimento é a realidade das apresentações psíquicas da pulsão, e
    não das pulsões em si mesmas. Freud disse a respeito que “o objeto
    interno é menos incognoscível que o mundo exterior…como o físico,
    tampouco o psíquico necessita ser em realidade tal como nos parece.
    Todavia nos agradará descobrir que a retificação da percepção interna
    é menos rebelde do que a retificação da percepção externa, e que o
    objeto interno é menos incognoscível do que o mundo exterior”.

    Todavia, finaliza Popper (10) :”todo enunciado científico empírico
    pode ser apresentado de maneira tal que todos quanto dominem a técnica
    adequada possam submetê-los a prova. Se, como resultado, houver
    rejeição do enunciado, não basta que a pessoa nos fale acerca de seu
    sentimento de convicção, no que se refere às suas percepções. O que
    essa pessoa deve fazer é formular uma asserção que contradiga a nossa,
    fornecendo-nos indicações para submetê-la a prova. Se ela deixa de
    agir assim, só nos resta pedir-lhe que faça novo e mais cuidadoso
    exame de nosso experimento, e que reflita mais demoradamente”. Sob as
    luzes da Epistemologia, como apontada nos parágrafos anteriores, vou
    apresentar minha descoberta, a de que há dois registros distintos de
    memória na espécie humana, colocando minha descoberta a prova por
    todos que dominem a técnica adequada e a possam submeter a teste. Por
    razões didáticas vou dividir a explanação de minha descoberta em dois
    capítulos abaixo descritos.

    CAPÍTULO 1

    Nosso destino é construído no decorrer da ontogênese, como edificação
    psíquica fantasmática que se inicia no útero com impressões e emoções
    emanadas do inconsciente materno. O destino habita o porão da nossa
    mente, de tal maneira que cada um de nós, dependendo de como resolve,
    ou não, o complexo de Édipo, determina para si próprio, sem nunca o
    saber conscientemente, isto é, com os recursos da memória comum que
    conhecemos, todo o trajeto de vicissitudes que irá percorrer pela vida
    afora. Não está escrito nos astros, embora muitas vezes possa ser
    previsto à perfeição por astrólogos, cartomantes, videntes,
    pais-de-santo: não porque forças do além ou almas do “outro mundo”,que
    não existem, venham em auxílio para esses maravilhosos paranormais. O
    que acontece é que estes têm a faculdade, ainda desconhecida da
    ciência em sua fisiologia, de fazer a leitura direta do inconsciente
    (do consultado) pelo inconsciente do paranormal. Todavia, é de
    conhecimento público e universal que estas acertadas previsões,
    acertadíssimas muitas vezes, apenas reportam para o consultado o que
    vai ocorrer em sua vida, mas exatamente são acertadas porque nunca
    servem para mudar o curso do destino do consultado ou de sua história.

    Não há psicoprofilaxia para miríades possíveis de autoconfigurações
    ontogenéticas da psicogênese de cada um de nós, já que dependem, cada
    uma, de fatores intrínsecos e ainda imponderados de cada criança que
    vem ao mundo, parecem depender pouco ou nada do nosso DNA já que
    gêmeos homozigóticos podem traçar para si destinos completamente
    diferentes – o que isenta os pais e a família de qualquer
    responsabilidade. No cume de minha carreira profissional, que se deu
    no ano de 1991, descobri a “Memória dos Freitas” (e aqueles que
    ficarem curiosos porque dei à memória que descobri o nome de minha
    família digo que foi por um imperativo categórico, exaustivo e
    desnecessário de explicar aqui, mas extensamente explicado no meu
    livro, constante da bibliografia)4 e a publiquei na terceira edição de
    meu livro “Psicofarmacologia Aplicada à Clínica”. A Memória dos
    Freitas é uma descoberta psicanalítica e é uma expressão de nosso
    destino. A imensa maioria das pessoas passa a vida estritamente dentro
    de seus preceitos e limites, mas uma minoria de pessoas rompe com
    estes, embora mesmo assim sua influência sobre tais rompedores
    continue implacável por toda a vida. Aqueles que vivem unicamente nos
    preceitos e limites da Memória dos Freitas são a maioria do povo, os
    menos inquietos com seus dogmas, os que não sentem necessidade de
    criar, de procurar um pensar genuíno, inovador ou mesmo
    revolucionário, nem mesmo alcançam uma diferenciação de self do
    conjunto simbiótico da horda humana em que vivem. Comportam-se, no
    mundo, como rebanho. Para os que podem usufruir desta benesse, há uma
    tessitura de vida pronta, aprendida e apreendida na casa parental, no
    convívio social, e, em geral, podem ter garantido para si uma vida
    menos atribulada, ou até estável, já pronta -como destino- no porão da
    mente. Mantêm-se na mediocridade de ser e não precisam transgredir a
    Memória dos Freitas.

    A Memória dos Freitas é a memória
    sócio-cultural-inconsciente-familiar-pessoal do indivíduo, sua
    mitologia, sua religião e crenças, seus ideais a serem perseguidos,
    dentro de sua tradição e seu folclore. Os transgressores não o fazem
    por prazer mas por necessidade (inquietação anímica, sensibilidade
    supra-mediana). A compositora Chiquinha Gonzaga, por exemplo, cuja
    vida anímica não cabia em sua tradição familiar e cultural rompeu pela
    esquerda com a Memória dos Freitas. Quando há esta ruptura, torna-se
    impossível regressar a esta memória e viver dentro de seus preceitos,
    e o indivíduo transgressor é obrigado a criar para si e para o mundo,
    redesenhar o universo para renominar as coisas, outros meios e
    métodos, outros paradigmas, outros ideais a serem perseguidos, outra
    maneira que lhe ajude a não sucumbir ao caos que decorre do abandono
    de padrões familiares, culturais, sócio-educativos pré-estabelecidos
    no decorrer e na construção feita por várias gerações suas ancestrais,
    cujo objetivo é “enquadrar” o rebanho e tornar possível a vida em
    sociedade (a mediocridade do enquadramento como rebanho é necessária,
    pois sem as normas inconscientes, as massas promoveriam a barbárie e a
    autodestruição: a Memória dos Freitas é uma necessidade humana, nesta
    pré-história do humanismo). Para os que rompem pela esquerda, criar
    passa a ser uma tarefa árdua e compulsória, ah! esses príncipes e
    princesas da solidão!, mesmo que aparentemente acompanhados.

    O sujeito bem adaptado à Memória dos Freitas vive, em geral, sem
    grandes inquietações interiores, e suas ambições coincidem com as de
    seu meio sócio-cultural, sendo por isso bem aceitos em suas
    comunidades. Tais pessoas podem enriquecer de dinheiro, tomar postos
    no grande empresariado, nas lideranças políticas ou religiosas, podem
    ser excelentes profissionais liberais, como também podem -a maioria-
    fazer parte da população de baixa renda. São todos estes os indivíduos
    comuns do povo e sua maioria é aquilo que podemos chamar de “pessoa
    normal”. Para aqueles que rompem pela esquerda com a Memória dos
    Freitas, surgirá, inexoravelmente, a hostilidade familiar e social: o
    sujeito passa a ser visto como esquisito, extravagante, ou mesmo
    “maluco”. Todo este mal-estar que causa à família e ao meio social que
    frequenta provoca, nestes últimos, a reação de contrapartida, cujo
    objetivo (inconsciente) é forçar a volta daquele que rompeu para os
    cânones da Memória dos Freitas, já que o rompedor questiona dogmas e
    valores sociais vigentes, ameaçando a homeostase do rebanho. Um
    artista ou escritor de talento, um compositor ou pintor criativo, irá
    experimentar estranheza ante aquilo que, antes, lhe era familiar, e
    passará a questionar e mudar sua visão de mundo. Há, então, de pagar o
    ônus de ser diferente para conseguir conviver com aceitável harmonia
    no meio social que o hostilizará. Paradoxalmente, com o passar dos
    anos (mas às vezes, infelizmente só post-mortem) terá compensações e
    reconhecimentos, que normalmente tardam. Mas certamente ganham para si
    próprios os louros de maior riqueza na vida espiritual , além de
    deixar um legado conceitual enriquecedor para a humanidade. A Memória
    dos Freitas é, também, uma fonte de conhecimento de nossa
    pré-história, e neste sentido não pode ser desprezada. Por exemplo,
    nos sonhos, na regressão hipnótica, nas rememorações verdadeiras
    -embora ainda explicadas com teoria pífia e errônea- ocorridas nas
    auto-denominadas “terapias-de-vidas-passadas” (que são inócuas
    exatamente por causa da fundamentação teórica bizarra), em gestos e
    comportamentos “involuntários” (inconscientes) que o indivíduo
    reproduz no cotidiano ou em alguma época de sua vida, tais como uma
    maneira de andar (lembrar a Gradiva, de Jansen, analisada por Freud),
    ou movimentar coreograficamente as mãos e o corpo ou comportar-se com
    gestos, temperamento, caráter tal qual um bisavô ou bisavó que nunca
    conheceu (características muitas vezes atávicas), ou uma compulsão
    para adoecer das pernas a partir de uma certa idade, na velhice, comum
    em algumas gerações de famílias que acompanho e anoto o registro (4),
    de tal maneira que o descendente remoto, irmãos e primos param de
    andar sem razão médica detectável, imitando mesmo que atavicamente
    seus ancestrais desconhecidos. Toda esta constelação de fatos pode nos
    dar pistas sobre as “vidas passadas”, o destino e a Memória dos
    Freitas, ao sujeito transmitidos por seus antepassados, de forma
    sub-reptícia, inconsciente, predominantemente averbal, até porque de
    antepassados que sequer conheceu, às vezes muito remotos no tempo.

    Esta transmissão inconsciente de códigos comportamentais e de destinos
    foi, de certo modo, reconhecida por Freud como fenômeno natural da
    psiquê humana. Disse Freud no Capítulo V (10) (vide página na
    bibliografia) de seu livro “Esboço de Psicanálise”, uma de suas
    últimas obras, que “os sonhos trazem à luz um material que não pode
    ter-se originado nem da vida adulta de quem sonha nem de sua infância
    esquecida. Somos obrigados a considerá-los parte de uma herança
    arcaica que uma criança traz consigo ao mundo, antes de qualquer
    experiência própria, influenciada pelas experiências de seus
    antepassados. Descobrimos a contrapartida deste MATERIAL FILOGENÉTICO
    (o grifo é meu) nas lendas humanas mais antigas e em costumes que
    sobreviveram. Dessa maneira, os sonhos constituem uma fonte da
    pré-história humana que não deve ser menosprezada”. Aqui vemos com
    clareza que Freud reconheceu o fenômeno da transmissão de códigos
    inconscientes comportamentais, transgeracionais e sócio- culturais
    entre gerações que sequer tiveram contato temporal, mas também podemos
    notar, com igual transparência, seu erro teórico crasso, absurdo para
    os conhecimentos da ciência atual. Para Freud, a gravação da memória
    de costumes, lembranças e códigos comportamentais a nós transmitidos
    por nossos antepassados seria filogenética, isto é, repassada das
    vivências de gerações antigas para e pelo DNA (Em sua época ele falava
    de “gametas”). O pai da psicanálise não estava sozinho ao pensar assim
    em sua época (Jung também) (4). A Lei da Herança de Caracteres
    Adquiridos, da Teoria da Evolução de Lamarck (3) ( vejam na
    bibliografia) (1) ainda tinha adeptos, incluindo-se a Teoria da
    Degenerescência, que Freud abraçou em sua obra, embora timidamente; e
    entre os adeptos de Lamarck estava Freud, que se opunha à Teoria da
    Evolução de Charles Darwin, jamais abraçada por ele (embora Freud cite
    Darwin algumas vezes em sua obra, e lhe faça elogios, o que fez com a
    razão, Freud escreveu o nome de Darwin em sua obra como os católicos
    escreveram o nome de Pôncio Pilatos no CREDO: o nome está lá mas não
    tem nenhuma função: não há uma só interpretação nos casos clínicos de
    Freud ou uma só frase em seu oceano de insights contido em suas obras
    completas que tenham sido intuídos com matizes subjetivos da teoria
    darwinista). E isto tem uma explicação. A teoria darwinista jamais foi
    abraçada por Freud porque supostamente (até hoje) fere as escrituras
    sagradas judaicas. Freud era ateu, admirava Darwin com sua razão, mas
    por motivo afetivo jamais conseguiu se distanciar, inconscientemente
    (Memória dos Freitas) da cultura e da tradição judaicas, às quais foi
    sempre solidário, nos acertos e nos erros. Hoje, nem uma criança de
    ensino médio ou Freud se permanecesse vivo iriam aceitar explicações
    lamarckistas.

    Sou obrigado a abrir um parágrafo aqui porque desde 1991 tenho
    experimentado oposição na troca verbal de ideias com analistas vários,
    judeus e não judeus, por causa desta minha afirmação de que Freud
    abominava emocionalmente Darwin e se apoiava em Lamarck para
    (inconscientemente) proteger a cultura judaica. Já me chamaram até de
    anti-semita! Outros, menos radicais, dizem que não é verdade, que
    Freud adorava Darwin: prezados leitores, é só ler Ernest Jones(1) na
    bibliografia e nas páginas que indico neste trabalho, o insuspeito
    Ernest Jones, para fazer calar estes insultos que venho recebendo há
    treze anos. Acho que o próprio Freud treme no túmulo cada vez que ouve
    um psicanalista argumentar estes horrores ortodoxos e dogmáticos
    contra minha descoberta. A investigação sobre a transmissão de códigos
    entre gerações, falada por Freud, nunca foi prosseguida (nem se fala
    nisso) pelos psicanalistas porque há muita ortodoxia e,
    pior,dogmatismo, mesmo entre os psicanalistas. E logo dogmatismo lendo
    como “Bíblia” as palavras do pai da psicanálise, que nunca pediu
    rebanho e tinha horror de fanáticos-dogmatistas! Ortodoxia
    psicanalítica ou dogmatismo psicanalítico = Memória dos Freitas dentro
    da própria Psicanálise. Quem foi mais heterodoxo com suas próprias
    idéias, insatisfeito com a primeira criou a segunda tópica
    psicanalítica, entre muitos outros exemplos foi o próprio Freud, o
    gênio que possibilita eu hoje estar escrevendo este artigo. Mas não
    imagine o leitor quão difícil é colocar este assunto, quanto
    sofrimento, quanta incompreensão tenho recebido. Mas não tenho como
    sucumbir ao dogma. Minha teoria pode ser refutada (e espero que seja)
    pelos critérios de Popper, epistemologicamente. Mas na base da
    ortodoxia psicanalítica, não. Até porque este não é o critério de
    refutar teorias. E estou convencido de estar com a razão. Por outro
    lado, no vácuo teórico deixado por Freud, os espíritas passaram a
    “explicar” esta “memória-de-vidas-passadas” com uma teoria tão absurda
    quanto a de Freud. A teoria dos espíritas é consensual, hoje, entre
    os”terapeutas-de-vidas-passadas” no mundo todo, e se alastram tanto
    quanto as diferentes seitas evangélicas Brasil afora, fazendo vítimas.
    Acreditam estes “terapeutas”, todos espíritas, que no setting da seção
    de “terapia-de-vida-passada” almas do “outro mundo” encarnam-se no
    paciente, hipnotizado ou não, o que, então, para estes, explicaria
    suas lembranças de épocas remotas, anteriores ao seu nascimento.

    Claro, assim também não dá. Todavia o fenômeno, já notado por Freud,
    de reminiscências que o sujeito tem de fatos que antecederam a seu
    nascimento é um fato da natureza humana e tudo que é fato da natureza
    insiste em acontecer e reclama uma explicação. O que fiz ao nominar
    (criar) a noção de Memória dos Freitas foi refutar, de acordo com os
    critérios epistemológicos de refutação de Karl Popper, as duas teorias
    acima descritas, a de Freud e a dos espíritas, trazendo uma nova
    teoria que contradiz aquelas e oferecendo ao leitor os meios de
    refutar a minha própria teoria. O conceito e a constelação de
    proposições que compõem a Memória dos Freitas, porém, não se esgota
    aqui.

    Na verdade, coloquei à frente este assunto da memória entre gerações
    não conviventes por seu apelo à atenção pública, mas este é apenas um
    assunto um tanto periférico de minha descoberta. Outros aspectos mais
    relevantes e mais importantes da Memória dos Freitas vou abordar no
    capítulo 2 deste ensaio, para dar uma folga ao leitor para respirar.

    Todavia, acrescento que as lembranças de fatos que ultrapassam no
    tempo a época do nascimento de pacientes, pelo que observo em minha
    clínica, não se referem somente a parentes ancestrais consanguíneos:
    podem ser do ambiente de uma família adotiva, o que sepulta de vez a
    hipótese de transmissão pelo DNA. E, ainda, estas lembranças podem ser
    interpretadas e decodificadas no setting da psicanálise (4). A
    psicanálise, ao decodificar e interpretar a Memória dos Freitas, muda
    o destino, e não há cartomante ou vidente paranormal que possa prever
    o que virá a acontecer no futuro de um paciente bem analisado. Outras
    consequências de minhas descobertas, em parte publicadas neste
    primeiro capítulo e aqui em primeira mão, já que quando publiquei a 3°
    edição de meu livro (4) ainda não havia percebido isso, é que só há
    indicação de psicanálise para aqueles que rompem pela esquerda com a
    Memória dos Freitas. É crueldade psicanalisar um paciente, mesmo
    neurótico, bem adaptado à Memória dos Freitas porque a psicanálise (se
    for bem feita) irá fazê-lo romper com a Memória e trará sofrimento
    para o paciente, muitas vezes sem a força criativa necessária para
    reordenar o caos que daí decorre, mesmo com auxílio do analista. A
    pobreza de espírito, a adaptação à mediocridade são, portanto,
    contra-indicações absolutas de psicanálise. Já os que rompem pela
    direita com a Memória dos Freitas – psicopatas, dementes,
    esquizofrenias com sintomas negativos (a hebefrênica especialmente),
    esquizofênicos cronificados, deficiência mental- a psicanálise é uma
    hipótese que deve ser definitivamente afastada: nessas pessoas não há
    como criar e reordenar o caos pelo insight e interpretações,
    provocando uma ruptura impossível pela esquerda com a Memória dos
    Freitas. Para esses, terapias alternativas que não molestem o
    inconsciente são melhor indicadas. Outro desdobramento de minha
    descoberta, que eu não havia percebido ainda quando publiquei minha
    terceira edição de meu livro (4) é o de que nos psicóticos que rompem
    pela direita (esquizofrenia hebefrênica ou a forma catatônica da
    doença , psicoses cronificadas), nas demências que deles necessitem,
    só há dois antipsicóticos (neurolépticos) de segunda geração no
    mercado brasileiro que ajudam a tratar: a quetiapina -o melhor de
    todos- e a amisulprida. O haloperidol, bem como os demais
    antipsicóticos, mesmo os de segunda geração como a olanzapina, a
    risperidona, a clozapina, por exemplo, não só não ajudam a tratar como
    agravam estes quadros mórbidos. Isto a experiência empírica dos
    colegas poderá confirmar (embora eu não recomende que tentem
    doravante) mas é um fato clínico observado com rigor por quem escreve
    livros e artigos sobre psicofarmacologia desde1981.

    No entanto, o haloperidol, os neurolépticos tradicionais e os demais
    antipsicóticos de segunda geração que não a quetiapina e a amisulprida
    são de valor e ajudam a tratar, com eficácia similar estes outros
    pacientes (a escolha deve ser feita apenas levando em conta apenas os
    efeitos adversos) aos esquizofrênicos e demais psicóticos que têm
    sintomas produtivos (delírios, alucinações, predominantemente), como
    na forma paranóide da esquizofrenia, na mania, (mas estes pacientes
    normalmente rompem pela esquerda com a Memória dos Freitas), quando
    bem tratados pelos psiquiatras e também nestes a psicanálise é
    normalmente bem indicada como psicoterapia, ou melhor, já que não é
    propriamente uma psicoterapia, como técnica de investigação do
    inconsciente, o que acaba sendo terapêutico. A psicanálise, nos que
    rompem pela esquerda, pode decodificar e interpretar a Memória dos
    Freitas e é a única via que conheço para modificar o destino porque
    joga um facho de luz nos porões da mente.

    Antes que em algum leitor suscite a ideia de que ao falar em romper
    pela esquerda e romper pela direita com a Memória dos Freitas a
    matéria tenha alguma raiz ideológica, pergunta que já me foi feita
    várias vezes, esclareço que não: em meu livro há um gráfico publicado
    com quadrante cartesiano de abscissas e ordenadas, com projeção em
    épura, no plano, da figura espacial que visualizei da Memória dos
    Freitas, no espaço, com o olho observador e projetor colocado em
    perpendicular (90 graus) relativamente ao plano cartesiano, colocado
    abaixo da imagem espacial, e sobre o centro da figura. Nesta projeção
    aparece a imagem plana da Memória dos Freitas centralizada no
    quadrante cartesiano. As doenças que mencionei como tendo rompimento
    criativo estão projetadas à esquerda da imagem central da Memória, e o
    rompimento destrutivo aparece projetado à direita. É pura Geometria
    Descritiva. É tal como acontece para se estudar um tórax: não se
    radiografa o pulmão em três dimensões, mas a épura (não deixa de ser
    épura) da figura espacial do pulmão que se quer estudar é vista no
    plano da radiografia. O mesmo vale para a tomografia, ressonância
    magnética: Seria difícil trabalhar com ressonância magnética de uma
    imagem espacial do cérebro, por exemplo. Temos de trazê-la para o
    plano, em épura.

    .

    CAPÍTULO 2

    No capítulo anterior discorri sobre a memória de fatos ocorridos antes
    de nascermos, aprendida e apreendida desde o útero materno e após o
    nascimento na casa parental e no meio social , que esta é inconsciente
    e impossível de evocar à consciência sem ajuda especializada, e que
    molda nosso comportamento cotidiano, crenças, erros e até acertos em
    nosso relacionamento com o próximo; ela é provinda de aprendizado
    averbal e informal, chamei-a de Memória dos Freitas e disse que o
    aspecto da reminiscência de fatos que precedem nossa data de
    nascimento dela faz parte. Mas afirmei que este é apenas um aspecto
    periférico de uma constelação de complexidades que formam a Memória
    dos Freitas, havendo outros muito mais importantes, embora tenham
    menos apelo à curiosidade humana. Mas sua utilidade e descoberta são
    uma nova aquisição da Ciência e devemos destes tomar conhecimento.
    Neste artigo vou revelá-los. O fenômeno foi primeiramente observado
    por Freud, mas a investigação paralisou porque este acreditava que a
    transmissão de memória entre gerações que não se tocaram no tempo era
    feita pelos gametas, isto é, pelo DNA, o que é uma teoria absurda.
    Freud tinha em seu entorno o campo cultural de uma época na qual o
    Lamarckismo era muito forte, embora a Teoria da Evolução, de Darwin,
    já fosse conhecida. Sabemos que Freud, escritor de “O futuro de uma
    ilusão” muito se distanciou intelectualmente, das posições e dogmas
    religiosos, mas para ele o peso mítico deste aspecto evolucionista,
    por ser ele judeu, inconscientemente, foi-lhe intolerável de ser
    vencido, e ele não conseguiu distanciar-se, neste particular,
    AFETIVAMENTE, de sua cultura judaica, de tal maneira que este ponto
    afetivo tornou-se um ponto inatingido à compreensão do mestre. Vou
    aproveitar o conceito de ponto inatingido (4) como marca da cultura e
    da tradição regional, familiar e pessoal inconscientes de cada um de
    nós, para explicitar a tradição a que chamei de Memória dos Freitas. O
    que chamei de Memória dos Freitas é, também, nossa instância mítica. E
    o que é um mito?

    Os mitos são contos que não conseguimos desmentir, decodificar ou
    reduzir com o curso normal do pensamento e com a evocação da memória
    comum, já que não são conscientes. São relatos de origem popular, não
    reflexivos, na maioria das vezes retratando forças da natureza ou
    crendices tão ilógicas como onipresentes e atuantes em nosso
    cotidiano, escondidas no porão da mente: lobisomem, ideias de que olho
    grande e inveja de outros têm energia para nos trazer infortúnio (sem
    que consigamos enxergar o óbvio científico de que inveja não tem
    energia nenhuma, tanto na concepção da Física Clássica, de Newton,
    quanto na da Física Quântica (2), e por ser um sentimento, apenas, e
    inerente ao sujeito que dela padece, e só faz mal ao invejoso). O
    raciocínio crítico sucumbe aos mitos, porque os mitos, sendo
    inconscientes, não são suscetíveis de exame pela razão e nem nela
    chegam, por mais inteligente e perspicaz que seja a pessoa. Estes são
    aprendizados inconscientes irracionais. Posso dizer também que o mito
    é uma verdade que o indivíduo inconscientemente se acredita possuidor,
    que não é estabelecida pela razão. Sua decodificação é difícil, mas
    possível através da psicanálise, e a dificuldade é ancorada no fato de
    não podermos evocá-los à lembrança, em outras palavras, à luz do
    pensamento, e às vezes é difícil até mesmo decodificar seu próprio
    enunciado, que pode, ser intensamente vivido pelo indivíduo, sem que
    este se aperceba sequer de como é que seu mito se enuncia. Como eu
    disse, os mitos são contos que não podemos desmentir, descumprir,
    decodificar ou reduzir pelas vias normais do pensamento, e têm um
    caráter universal, quer seja este universo a humanidade toda, a
    região, a família ou a própria subjetividade do sujeito (mitos
    pessoais). E agora? Digo que os mitos são contos e que há nesta sua
    transmissão, através das gerações, um aprendizado informal, e o leitor
    há de perguntar: Então quem conta esses contos? A esta pergunta vou
    responder com um caso clínico emprestado do próprio Freud, em cima de
    uma passagem de seu livro “Análise da fobia de um menino de cinco
    anos”5, o famoso caso do pequeno Hans.

    Logo na introdução, parte I do texto, conta Freud que Hans, aos três
    anos e meio de idade, foi visto por sua mamãe tocando com a mão no
    próprio pênis. Ela o ameaçou com as seguintes palavras: “Se fizer isso
    de novo, vou chamar o Dr. A para cortar fora o seu ‘pipi’ “. Como se
    pode perceber, esta curta história, tão universal, que se passou com
    Hans e sua mamãe – e todos nós já presenciamos mães e adultos
    repetindo esta mesma ameaça a crianças pequenas sem saber que estão
    propagando um trágico mito inconsciente – contém uma codificação
    inconsciente mítica, que a mãe de Hans nem conhecia de pleno teor o
    seu significado, codificação que a ela foi transmitida por seus
    ancestrais e que ela retransmitiu para o filho. Exatamente por não ter
    consciência do enunciado do mito que estava retransmitindo ao filho, o
    retransmitiu de forma incompleta e falseada. Na verdade, nem era o Dr.
    A que estava presente no inconsciente da mãe de Hans quando ela
    retransmitiu ao filho uma ameaça aprendida inconscientemente com seus
    próprios ancestrais. Este material, incompletamente verbalizado, deu a
    Hans munição para a formação de um de seus mitos, o mito da castração.
    Entre as lacunas que ficam naquilo que é transmitido pelas gerações
    anteriores, entre as lacunas daquilo que é retransmitido incompleta e
    falseadamente, entre as lacunas daquilo que o menino ou a menina podem
    apreender com as suas próprias palavras (único instrumento simbólico
    que dispõem para construir sua visão de mundo) e fantasias que
    encontram sobre o que observam em si mesmos e no mundo externo nascem
    os mitos, todos os mitos, estes tapa-buracos do pensamento humano. Os
    nossos mitos mais primevos e mais universais são as nossas
    protofantasias, a de sedução,a de castração e a da cena primária. São
    elas fantasias sobre a origem, e não fantasias presentes desde a
    origem (como imaginavam Freud, Jung e ainda muitos analistas hoje em
    dia, resíduos do Lamarckismo, que imaginava, dentro da psicanálise,
    que as protofantasias já vinham desde a origem, trazidas pelos gametas
    – DNA-) e que bom que são, na verdade, apenas fantasias criadas pelas
    representações simbólicas através de impressões e experiências
    inconscientes, e, portanto, fantasias que nós todos criamos como
    edificações simbólicas na ontogênese – desenvolvimento que depende da
    cultura-, pois se fossem fantasias herdadas pelo DNA –
    (filogenéticas),como pensavam Freud e Jung, como poderia a psicanálise
    atenuar efeitos mitológicos desestruturantes?

    Mitos desestruturantes tanto quanto mentirosos são os que as pessoas
    têm de que inveja e olho grande, ou ódio de outrem podem ter uma
    “energia” que faz mal ao indivíduo invejado. Este é apenas um exemplo,
    entre miríades. Se apelarmos para a razão e o conhecimento da
    ciência,os mitos cairão por terra ao primeiro exame: Os mitos só
    servem à perpetuação dos dogmas e à manutenção do espírito de rebanho,
    geralmente provocam medo e têm a função social complementar às leis
    civis e religiosas, sendo mais poderosos que essas porque não são
    verbalizáveis, são impostos pela Memória dos Freitas e imunes ao
    raciocínio crítico e à liberdade de opinião, e têm como função
    primordial não permitir que o indivíduo mediano transgrida “normas”
    estabelecidas socialmente e, portanto, têm eficácia em impedir uma
    barbárie, ainda maior do que a que hoje vemos no Brasil e no Mundo. A
    descoberta da Memória dos Freitas e a possibilidade que aí se abre
    para jogarmos sobre esta, (que habita os porões da mente e cujos
    subprodutos assustadores, castradores, tirânicos, impositivos
    proliferam como fungos na escuridão), fachos de luz, permitem o alívio
    e a libertação de todos nós dos grilhões que nos tolhem os passos do
    crescimento, desfazem nossa ignorância sobre as verdades da natureza e
    ajudam no sentido de que a nossa vida seja mais produtiva, livre,
    descontraída e profícua, sem medos absurdos e irracionais. No
    presente, só uma minoria rompe com ela (a Memória dos Freitas) e não é
    por escolha, mas por desconforto, e quando rompe pela esquerda cria as
    obras que edificam o conforto e o progresso da humanidade: nós vivemos
    todos nas costas desses gigantes. A maioria das pessoas precisa ficar
    dentro dela, já que a civilização ainda não criou instrumento menos
    cruel para garantir à grande massa a necessária humanização sem usar
    instrumentos coercitivos: e não só da Memória dos Freitas que
    precisamos para que não se saia cometendo por aí, Brasil e mundo
    afora, toda espécie de delitos, crimes, das maneiras mais horrendas:
    ainda precisamos de Código Penal, polícia, religião e Forças Armadas!

    A humanidade ainda está na pré-história do humanismo. Só os muito
    grandes de espírito percebem a coerção que a Memória dos Freitas
    representa e com ela rompem para criar. Mas se a humanidade toda
    rompesse, sem os mesmos recursos criativos desses super-homens, seria
    uma catástrofe.

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    1. Jones, Ernest – Vida e Obra de Sigmund Freud, IMAGO ED.. Vol.2,
    páginas de 301 a 313, Título X – Biologia, Rio de Janeiro, 1975.

    2. Kalmus, H. – Genetics, Pelican Ed., London, 1948.

    3. Lamarck, Jean Baptiste – Philosophie Zoologique, Librairie
    Reinwald, Schleideir Frères Editeurs, Paris, 1907.

    4. Freitas, Ednei – Psicofarmacologia Aplicada à Clínica, EPUB ED., 3°
    Edição, páginas de 3 a 47, Rio de Janeiro, 2000.

    5. Freud, Sigmund – Análise de uma fobia em um menino de cinco anos,
    IMAGO ED., Edição Standard Brasileira, Vol. X, Rio de Janeiro, 1975.

    6. Freud, Sigmund – Os instintos e suas vicissitudes, IMAGO ED.,
    Edição Standard Brasileira, Vol.XIX, Rio de Janeiro, 1975.

    7. Freud, Sigmund – (1937-1939) – Esboço de Psicanálise, IMAGO ED.,
    Edição Standard Brasileira, Vol XXIII, páginas de 169 a 210, mas
    especialmente a página 193, Rio de Janeiro, 1975.

    8. Kant, I. – (1781). Critique of pure reason, in The Transcendental
    Doctrine of Method, N. Kemp Smith Ed., Capítulo II, seção 3, página
    645, England, 1933.

    9. Popper, Karl – A lógica da pesquisa científica, Ed. Cultrix,
    páginas de 46 a 49 e 106, São Paulo, 1989.

    10. Poper, Karl – Conhecimento Objetivo, Ed. Itatiaia, páginas de 152
    a 158, Belo Horizonte, 1975.

    RESUMO

    Este artigo contém a comunicação científica da descoberta de que há um
    duplo registro de memória na espécie humana. O segundo registro, ora
    comunicado ao meio científico, é desconhecido pela ciência e difere do
    que a ciência, a psiquiatria e a psicanálise conhecem e nominam como
    memória, até o presente momento. Tal conhecido registro é um dos
    registros de memória que tem o ser humano, mas o segundo registro que
    se distingue completamente do que hoje se conhece como memória, ainda
    é ignorado por estas ciências. A descoberta aqui publicada o foi à luz
    da Epistemologia.

    ABSTRACT

    This article introduces a discovery of a double memory register in
    human mind. The second memory register now discovered is until unknown
    by science and has different function of the first one well know by
    science. They are not similar at all. That discover is published here
    under lights of Epistemology.

    RESUMEN

    El articulo contiene la comunicación cientifica de descubrimiento de
    que hay dos y no solo uno registro de memoria en los humanos. El nuevo
    registro acá hecho en comunicación para la comunidad cientifica és
    desconocido por la ciencia, la psiquiatria, la psicoanalisis, y és muy
    diferente de lo que estas ciencias conocem con el nombre de memoria
    (esto derradero, és tan solamente uno de los registros de memoria en
    el hombre e ya se lo conoce bién) hasta nuestros dias. El articulo,
    como el descubrimiento, se hace acá descripto a la luz de la
    Epistemologia.

    * Ednei José Dutra de Freitas, MD , PhD. é psiquiatra, psicanalista,
    Membro Titular da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, Analista
    Didata da International Psychoanalytical Association (IPA),
    ex-professor de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de
    Medicina da UERJ (RJ), Membro Titular da Sociedade Brasileira de
    Médicos Escritores (SOBRAMES) e autor do livro Psicofarmacologia Aplicada à Clínica, 3ª Edição , Editora EPUB , Rio de Janeiro, 2000.

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