Arquivos Entrevista - Blog do Callado

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Ricardo Callado26/04/201912min
Rafaela Albuquerque, diretora do Detran, fala sobre o Maio Amarelo. Foto: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília

Sexta edição da campanha Maio Amarelo, ação mundial de conscientização sobre a violência no trânsito, terá lançamento oficial em Brasília na próxima segunda-feira (29), no Palácio do Buriti

Por Lúcio Flávio

No trânsito, a cor amarela simboliza sinal de alerta, atenção, advertência. Para a Organização das Nações Unidas (ONU), desde 2011 essa pigmentação ganhou dimensão social abrangente no Brasil e no mundo. Foi quando a Assembleia-Geral da entidade internacional decretou os nove anos seguintes como a “Década de Ações para a Segurança no Trânsito”. Nascia assim, o Maio Amarelo, o mês de conscientização sobre a violência no trânsito.

Com abertura nacional da campanha realizada na última quarta-feira (24), em Vitória (ES), e lançamento oficial em Brasília programado para acontecer na próxima segunda-feira (29), às 10h, no Salão Branco do Palácio do Buriti, há seis anos o movimento vem mobilizando o poder público e a sociedade civil no país com o objetivo, entre outras coisas, de despertar a atenção para o alto índice de mortes e feridos no trânsito.

Trata-se de uma ação em favor da vida e da valorização de escolhas conscientes individuais fundamentais que refletem no coletivo. São atitudes que ajudam a manter um ambiente seguro tanto para o condutor do veículo, quanto para pedestre, enfim, todos os atores envolvidos. Preocupações, diga-se de passagem, norteadas, este ano, pelo tema: “No trânsito, o sentido é a vida”.

Diretora de Educação de Trânsito do Detran DF (Direduc) e uma dos dois únicos representantes da causa em Brasília, Rafaela Albuquerque comenta que as ações preventivas e educativas da campanha Maio Amarelo têm contribuído de forma eficiente para reverter quadro tão preocupante. Dados do Detran-DF mostram que, comparando os quatro primeiros meses entre 2018 e 2019, até agora, a redução de mortes fatais foi de 30% e acidentes 28%. “Nosso desafio é, por meio de nossas ações, conseguir plantar a sementinha da conscientização. O foco maior é a vida de todos no trânsito”, destaca a servidora.

Ainda em entrevista à Agência Brasília, a diretora do Direduc fala do poder missionário das crianças na conscientização de tema tão vital, os desafios do trabalho educativo na área e como a criação de leis mais rigorosas têm ajudado no sucesso da ação. “São iniciativas que contribuíram para garantir uma proteção e segurança maior no trânsito”, assegura.

 

Que reflexão você acredita que a sociedade possa tirar do lema deste ano: “No trânsito, o sentido é a vida”?

Com o slogan deste ano a população deve acreditar que nós somos muito mais do que um carro, moto ou bicicleta, que é algo material. A ideia é trazer a questão para o lado subjetivo, emotivo. Mostrar que ali, por trás do veículo, existe uma pessoa e, consequentemente, uma vida. Estamos lidando com vidas a todo momento e é isso que realmente faz sentindo no trânsito. E o nosso foco maior é a vida de todos no trânsito.

Qual o grande desafio de vocês que trabalham com a educação no trânsito?

Nosso desafio diário é, por meio das campanhas, de nossas ações pontuais, palestras educativas e cursos, conseguir plantar a sementinha da conscientização, enfatizando sempre o quão importante o trânsito é na vida do ser humano. Também, sensibilizar as pessoas a mudarem seus comportamentos inadequados para proporcionar um ambiente seguro para todos. E o Detran vai além, no sentido de que, para a autarquia, uma vida vale muito. Utopicamente, o nosso grande sonho, missão visionária, é de que não tenhamos mais acidentes fatais.

No mês de maio as atividades na educação de trânsito serão mais intensas?

Durante esse período trabalhamos de forma nacional num regime de força-tarefa, aonde diversos órgãos que compõe o Sistema Nacional de Trânsito são mobilizados de forma direcionada em prol do Movimento. No que diz respeito a nossa parte posso dizer que estamos com muitas ações, tanto por parte da diretoria de policiamento, quanto da diretoria de educação, inclusive integrando nossas diretorias internas e com parcerias governamentais e não governamentais. Uma logística que nos permite explorar vários focos de demandas com ações de conscientização voltadas para os motociclistas, pedestres, ciclistas, celular, etc.

Temos um projeto chamado Detran nas Escolas que é um verdadeiro sucesso. Ele abraça instituições da rede pública onde capacitamos professores e alunos. Os envolvidos recebem um material virtual, são convidados a se capacitar com a gente e depois vão semear esse aprendizado nas escolas.

O envolvimento das crianças no trabalho de educação no trânsito é fundamental, sobretudo, pela mensagem de conscientização que elas levam aos pais. Com funciona isso na prática?

Temos um projeto chamado Detran nas Escolas que é um verdadeiro sucesso. Ele abraça instituições da rede pública onde capacitamos professores e alunos. Os envolvidos são convidados a se capacitar conosco e depois vão semear esse aprendizado nas escolas. A ideia é que a educação de trânsito seja trabalhada de forma transversal, assim as crianças estão aprendendo matemática, português, mas também estão abraçando as causas do trânsito. Paralelamente a esse projeto, também fazemos visitas às escolas visitamos às escolas durante as campanhas De Volta Às Aulas, por exemplo, conscientizando pais e alunos. Também realizamos ações pontuais nas escolas que nos demandam, onde realizamos atividades interativas e lúdicas.

Como a garotada tem recebido essa iniciativa já que se trata de uma temática adulta?

As crianças adoram se sentir envolvidas no contexto do trânsito e são as nossas maiores semeadoras, educando seus pais, tios, avós, enfim, toda a família, da importância do respeito às normas de trânsito. Atendemos todas as faixas-etárias. Aquelas que não sabem ler ainda, trabalhamos com material lúdico, atividades como jogo da memória, quebra-cabeça e teatro. As que já sabem ler interagem por meio de livros e informativos.

O Brasil está entre os países com o maior número de vítimas no trânsito. Em que sentido movimentos como o Maio Amarelo contribuem para reverter esse quadro?

Ajuda de forma massiva tendo em vista que a educação é a base de tudo. É através dela que podemos modificar comportamentos inadequados no trânsito e, assim, dos atores ativos deste contexto viário. É importante que cada um tenha consciência do papel que exerce no trânsito, com conhecimento dos seus direitos e deveres.

No Brasil, a questão da violência no trânsito está intimamente relacionada à falta de conscientização e de educação das pessoas? Se cada um fizesse sua parte a realidade seria outra bem diferente…

Por meio de nossas campanhas tentamos trabalhar, principalmente, a questão da autorresponsabilidade do motorista, ciclistas, pedestres, enfim, dos atores ativos deste contexto viário. Se não agirmos de forma correta, estamos sujeitos a cometer um acidente de trânsito que irá afetar diretamente a si próprio e ao próximo. É importante que cada um tenha sua consciência e a necessidade de conhecimento do papel que exerce no trânsito, com conhecimento dos deis diretos e deveres.

É importante que cada um tenha sua consciência e a necessidade de conhecimento do papel que exerce no trânsito.

Como as mudanças nas leis de trânsito com normas mais rigorosas têm ajudado o trabalho de vocês na educação no trânsito?

Foi de extrema relevância essa rigidez. Vejo como iniciativas que contribuíram para garantir uma maior proteção e segurança no trânsito com medidas pontuais e acertivas.


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Ricardo Callado12/03/201918min

Líder do governo na Câmara, ele diz que resistência está sendo vencida

Por Heloisa Cristaldo

Em uma das funções mais complexas para um parlamentar de primeiro mandato, o deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO) assumiu a liderança do governo na Câmara com a missão de consolidar a base aliada para aprovar a reforma da Previdência, no primeiro semestre deste ano.
Indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para o cargo em janeiro deste ano, Major Vitor Hugo disse que as resistências iniciais do Congresso têm sido superadas com articulações e conversas entre os partidos para sensibilização das pautas do governo federal.

Para ele, neste momento, o envolvimento do presidente é importante para aprovação das propostas do governo, porque ele tem “capital político”.

Nascido em Salvador e eleito pelo estado de Goiás com mais de 31 mil votos, o deputado é advogado, consultor legislativo da Câmara e Major do Exército na reserva não remunerada.

A seguir, os principais pontos da entrevista do parlamentar à Agência Brasil:

Qual o balanço desse primeiro mês de atividade como parlamentar e também na função de líder do governo na Câmara?

Existe essa ansiedade em torno do novo líder do governo na Câmara porque é um deputado de primeiro mandato, um militar da reserva e servidor da Casa que ascendeu a deputado federal. Então isso começou de uma maneira mais tensa, mas vem se distendendo com as reuniões e com a melhor organização do Palácio do Planalto. É um governo novo, oriundo de uma eleição que só havia dois partidos políticos apoiando o presidente, ou seja, não havia uma coalizão o apoiando e também não houve o loteamento de ministérios. A base não foi pré-construída, ela está sendo construída ao longo do tempo e agora com a chegada da Joice [Hasselman, deputada do PSL e líder do governo no Congresso] e do [líder do governo no Senado, Fernando] Bezerra, o foco da Casa Civil e da Secretaria de Governo, isso vai acontecer de forma natural.

Essa é a sua primeira legislatura como deputado federal e também na função de liderança. Quais têm sido os principais desafios?

O maior desafio é o aspecto de não existir uma base pré-formatada e isso está sendo superado com as aproximações sucessivas. Por exemplo, eu trouxe o Rogério Marinho [secretário Nacional de Previdência e Trabalho e ex-deputado] para conversar com as bancadas de alguns partidos e vamos retomar. Já falamos com PSD, PR, PSDB, PSL e também fiz aproximações com os líderes dos partidos. Participei de reunião do Colégio de Líderes, fui à casa do [presidente da Câmara] Rodrigo Maia [DEM-RJ], fiz algumas conversas com ele. Conversei também com Davi [Alcolumbre, presidente do Senado]. Antes era mais fácil porque havia uma base pré-formada.

Como tem sido a articulação entre os partidos com as outras bancadas na sensibilização das pautas prioritárias para o governo?

O envolvimento pessoal do presidente é importantíssimo, porque ele é que tem o capital político. Ele que fez 57 milhões de votos. Isso foi inclusive levantado na reunião de líderes: pediram que ele se envolvesse, tanto que ele veio pessoalmente entregar a [proposta] da reforma da Previdência. Então, já há um engajamento pessoal dele e isso vai aumentar agora exponencialmente com rede social, com ele mesmo defendendo os pontos da reforma porque isso dá também um guarda-chuva para que os parlamentares consigam argumentar na base. A gente vai fazer todo o esforço para envolvê-lo. A gente sabe que a agenda dele, lógico, é muito corrida, mas vamos aproximar as bancadas, os líderes cada vez mais [do presidente]. Não dá para fazer uma reunião semanal dos líderes com o presidente, mas uma vez a cada mês ou dois meses. De modo particular, nesse momento da reforma não acredito que fique difícil de fazer. E o próprio conhecimento dos parlamentares e dos líderes acerca do texto vai aumentar a partir de agora. Os líderes, a própria imprensa, os analistas estão se aprofundando no texto. Algumas ansiedades já foram detectadas como a BPC [Benefício de Prestação Continuada – pago a idosos e pessoas com deficiência], a questão da aposentadoria rural, mas isso vai ser tratado no processo de negociação.

A perspectiva é que a proposta da reforma da Previdência comece a tramitar na Câmara neste mês. A liderança do governo tem uma contabilidade de votos, trabalha com uma margem de apoio?

Existem estudos já publicados que apontam que os partidos de oposição vão ter algo entre 140, 150 deputados. Então, se a gente colocar 141 deputados – que o que o estudo apontava – restariam 372 deputados que poderiam potencialmente formar a base. Então, a gente quer chegar nesse número porque não pode chegar às vésperas da votação tendo uma margem apertada. São 308 votos [necessários para aprovação de Proposta de Emenda à Constituição, em dois turnos de votação]. É muito voto realmente. Nesse sentido, como ainda não instalou a CCJ [Comissão de Constituição e Justiça] e está longe de instalar a comissão especial, até chegar ao plenário a gente vai ter dois, três meses, pelo menos. A liderança do governo avalia ainda como prematuro fazer qualquer levantamento agora. Fazer um levantamento através dos líderes agora é criar uma expectativa imprecisa, porque não houve nem tempo para amadurecer um estudo em cima do texto. Então, esse número potencial de 372 [de deputados apoiando] também não quer dizer que deputados de oposição não venham votar [favoravelmente]. Pode ter certeza que mesmo os governadores dos estados do Nordeste, que são todos de partidos de oposição, estão com a ‘faca no pescoço’ com esse equilíbrio de contas. Talvez eles não tenham interesse político de verbalizar, mas em seu íntimo estão torcendo para que seja aprovada. Imagino que se houver alguma resistência, ela será quase que passiva, esperando que aprove porque vai melhorar, inclusive, para que os governadores aprovem suas contas.

O governo tem trabalhado com qual perspectiva de prazo para aprovação da reforma na Câmara?

Maio, junho, é uma boa. O importante para nós é que se resolva essa questão no primeiro semestre, início do segundo, para que haja um reflexo fiscal inclusive este ano, possibilite a retomada do crescimento e do emprego, que o dólar caia, que a bolsa suba, que os juros caiam. O que a gente quer é isso. Então, quanto antes o impacto acontecer, melhor.

Houve a sinalização do presidente Bolsonaro em diminuir a idade para mulheres se aposentarem. Outros pontos polêmicos são as mudanças no BPC e na aposentadoria rural. Alguns parlamentares dizem que é muito cedo para flexibilizar o texto; outros dizem que, sem retirar esses trechos, a proposta não prossegue na Câmara. Qual é a avaliação desses aspectos?

Eu entendi a manifestação do presidente como um convite ao diálogo. Isso quer dizer que ele mostrou que já há uma possibilidade de conversar. A meta do governo é ter uma economia para além de R$ 1 trilhão em 10 anos. O déficit do ano passado na casa dos R$ 266 bilhões, em todos os regimes, com a projeção deste ano chegar a quase R$ 300 bilhões. A gente tem que mudar isso. Nessa crescente e nesse grau de déficit a economia em dois, três anos vai quebrar. Não vamos ter dinheiro para pagar os servidores, as aposentadorias, para fazer investimentos em infraestrutura que a gente precisa, os juros vão subir, a confiança do mercado vai diminuir. Nós precisamos fazer algo e a sociedade já tem essa consciência. Estamos confiantes de que o governo vai defender a íntegra da proposta, mas lógico, com capacidade de negociação. Tem vários outros pontos que chamamos de espinha dorsal ou princípios gerais da proposta, que não foram atacados e isso mostra que a proposta é excelente.

Existe a previsão do governo em trabalhar a comunicação da proposta para segmentos específicos, como servidores públicos e militares? No Judiciário, por exemplo, onde estão parte dos maiores salários pagos pela União, há uma grande resistência em relação à proposta. Como o governo avalia esse cenário?

Os militares não estão entre os grandes salários. Houve uma mudança na estrutura remuneratória deles em 2001, que foi extremamente penosa para eles. O Ministério da Defesa fez cálculos em termos de quantos bilhões foram economizados de 2001 para cá só com aquela mudança em uma medida provisória que nunca foi apreciada pelo Parlamento. Então, os militares estão em um momento que era para ser recomposto o salário, mas, entendendo o momento do déficit previdenciário, vão contribuir de alguma medida também. Eu estive com o ministro da Defesa [general Fernando Azevedo e Silva], são cinco leis que vão ser alteradas pela proposta de reforma da Previdência – lei de remuneração dos militares, lei de pensão, estatuto dos militares, lei de serviço militar e a lei de promoção dos militares. Realmente tem que ser feito com muito cuidado. São instituições bicentenárias, carreiras que vêm evoluindo ao longo do tempo. Em relação ao Judiciário e ao Ministério Público, estão sendo feitas várias articulações. Já conversei com membros do Ministério Público do Distrito Federal, membros da Conamp [Associação Nacional dos Membros do Ministério Público] e também recebi analistas tributários, auditores fiscais. Tenho feito diversas conversas, inclusive para me colocar à disposição para receber suas ansiedades.

Quais são os temas prioritários para o governo nesta Legislatura? Como o presidente Jair Bolsonaro pensa em trabalhar esses temas dentro da Câmara dos Deputados?

A reforma da Previdência é a prioridade número zero do governo, porque a partir dela vai se abrir espaço para a gente trabalhar em todas as outras frentes. Mas tem ainda a reforma tributária. O presidente tem falado: ‘Menos Brasília e mais Brasil’. Ou seja, descentralizar os recursos para a ponta da linha, onde a população efetivamente vive – estados e municípios. Hoje, a situação é invertida, a União arrecada muito mais e fica com muito mais dinheiro do que estados e municípios. Temos que fazer uma reforma tributária, administrativa, talvez aprofundar uma reforma política – que já foi feita em 2015 e terá efeitos até 2030 – mas tem muita coisa que poderá melhorar no nosso ambiente político. Tem ainda outras pautas relevantes para desenvolvimento da infraestrutura, algum aprofundamento da reforma trabalhista, o pacote anticrime para tentar reverter essa questão de segurança pública, que é caótica. Em algum momento, ao longo dos quatro anos, vai acontecer a discussão em torno da posse/porte de armas. O Parlamento me parece muito coeso em torno das pautas econômicas e dividido em torno das pautas de costume, como Escola sem Partido e alguma coisa ligada ao desarmamento – como o aumento do acesso às armas. O governo não propõe o descontrole, mas a facilidade de acesso.

Como tem sido diálogo com os partidos de oposição, uma vez que a liderança de governo não deve ficar restrita à sua base?

Primeiro, tenho mantido uma postura equilibrada, vou ao plenário para participar das discussões, negociações das pautas mais importantes e mantenho lá no plenário conversa com as lideranças da oposição para diminuir, amenizar as obstruções e isso tem sido um jogo muito aberto. Não tenho tomado o púlpito para fazer críticas contumazes, duras ou passionais à oposição para que essa interlocução seja possível. Se o líder do governo se apaixona, na minha visão, pode dificultar essa interlocução. Eu já conversei com o [deputado] André Figueiredo, líder do PDT, que é um partido que tem se mostrado aberto ao diálogo. É bom que tenha o contraditório. Vou me aproximar dos líderes dos partidos que estão no outro espectro político, mas não fazia sentido eu começar por eles.


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Ricardo Callado23/02/201920min

Em entrevista à Agência Brasília, secretário de Educação do DF, Rafael Parente, fala sobre os projetos inovadores que pretende implantar, a gestão compartilhada e anuncia a construção de novas escolas e creches

Por Renata Moura 
Com a proposta de humanizar a gestão das escolas públicas, o secretário de Educação, Rafael Parente, tem nas mãos a missão de conduzir a vida de 450 mil estudantes – responsabilidade que não assusta quem acumula anos de estudos e experiência. PhD em educação pela Universidade de Nova York, Rafael trabalhou como subsecretário de Educação no Rio de Janeiro e trouxe de lá para o DF experiências das quais ele participou.

Parente destaca o desenvolvimento de materiais didáticos próprios, elaborados por professores da rede pública do DF; a criação das provas bimestrais unificadas e a elaboração de atividades comuns de reforço pedagógico como seus objetivos à frente da Pasta. “Vamos trabalhar por uma política de formação continuada, que melhore a prática de professores e diretores dentro das escolas”, prevê.

Em entrevista à Agência Brasília, Rafael Parente afirmou que, entre os desafios de sua gestão, o maior será estimular os alunos a verem que a educação é o único caminho para a transformação de suas vidas.

O Distrito Federal é uma das unidades da federação com mais qualidade de vida. No entanto, nos últimos anos, experimenta índices muito ruins de avaliação da educação pública. Por que estamos nessa situação?

A educação no DF tem um potencial muito grande para o crescimento, e vamos trabalhar para melhorar isso porque temos um status socioeconômico médio muito acima das referências nacionais – e este é um dos fatores com impacto direto no processo de aprendizagem dos estudantes. O nível socioeconômico dos alunos é razoável; o salário dos profissionais da educação, se comparado com a média nacional, é muito bom. Aqui temos um bom tempo de coordenação. Os professores dão 25 horas de aula e têm três tardes de quatro horas para poder elaborar e programar suas atividades. Isso não existe em nenhum lugar do mundo! Brasília tem vantagens que só existem aqui. Então, o que falta? Acredito que seja uma política de formação continuada, que melhore a prática de professores e diretores dentro das escolas. Precisamos estimular mais os alunos para que possam ver que a educação é o único caminho para a transformação de suas vidas.

O que o senhor pretende fazer para melhorar o desempenho do ensino público no DF?

Temos as melhores e as piores escolas do Brasil. São várias redes dentro da rede de educação do DF, realidades bem distintas. Por isso, precisamos ter políticas diferentes para atender realidades diferentes. Um olhar para cada escola, para cada aluno, para cada profissional, sempre de forma particular e única. Algumas escolas que já identificamos precisam apenas de apoio financeiro e mais autonomia. Mas o diagnóstico tem de ser feito caso a caso. Temos muitos profissionais com padrão de excelência. Mas, infelizmente, também temos profissionais que precisam passar por capacitação e reciclagem. Claro que muitos deles estão desmotivados. Ninguém acorda um dia e diz: “hoje, eu quero fazer um péssimo trabalho”. Ninguém faz isso. Ou ele não consegue fazer melhor, não tem condições de trabalho; ou está desmotivado por alguma razão. Então, vamos trabalhar para identificar o que é. Pode ser um conjunto de coisas. Precisamos reagir para transformar a vida dos mais de 450 mil estudantes da rede pública. Eu estudei muito sobre as transformações educacionais pelo mundo. Temos agora alguns países como Vietnã, Letônia, República Tcheca e Portugal, em que grande parte do desenvolvimento está sendo fruto do investimento pesado na educação. Existe uma vasta literatura de pesquisas científicas mostrando o que funciona e o que não funciona na área. A equipe que temos hoje no DF é de excelência. Os melhores, a prata da casa, estão conosco envolvidos nesse projeto, todos trazendo muitas ideias e colaboração. Sinto que estão inspirados, porque estão vendo que o governador Ibaneis está focado e priorizando a educação.

Como motivar os servidores da educação?

Nossa palavra-chave para os servidores será valorização, oferecendo autonomia com responsabilidade. Queremos oferecer mais ferramentas, apostar mais em formação e, claro, verificar se os profissionais e as escolas vão ter melhores resultados. Tendo melhores resultados, mais autonomia a gente vai dar. Acho que, em breve, conseguiremos ter um plano de saúde para todos os profissionais da rede. Vamos continuar batalhando para melhorar o auxílio-alimentação e outras coisas que vêm em paralelo. Mas é obvio que temos mais legitimidade para lutar por melhorias, quando a gente entrega resultados.

Qual a proposta para mudar a realidade nessas escolas com desempenhos mais fracos?

Ao todo, contando com os centros interescolares de línguas, temos 693 escolas na rede pública. Desse total, cerca de 180 estão bem abaixo das médias, em situação bem ruim mesmo. Com essas, vamos iniciar o projeto Escolas Prioritárias, levando uma série de medidas, que vão desde a manutenção com limpeza das instalações e pequenas obras até reforço com mais professores e orientadores. Vamos recriar as provas bimestrais para toda a rede e elaborar atividades comuns de reforço pedagógico. Vamos oferecer cursos de aperfeiçoamento e atualização, eventos e novas tecnologias. Queremos lançar também o programa Educação Inovadora, com a criação de 14 hubs de inovação tecnológica. O primeiro deles vamos lançar em abril. No Rio de Janeiro, eu vi algumas dessas políticas darem certo. Estou trazendo versões melhoradas daquilo que fizemos lá. Implantamos uma escola super-inovadora dentro da Rocinha, criamos uma plataforma de aulas digitais… Então, muito do que estamos propondo aqui já foi testado e aperfeiçoado.

A secretaria já conhece as grandes dificuldades dos alunos da rede pública?

Nesta semana, estamos enviando para as escolas as avaliações diagnósticas para ver o tamanho desse gap [atraso] de aprendizagem de todos alunos da rede. Estamos enviando provas de português e matemática e também vamos mandar os cadernos de revisão com os conteúdos mais difíceis do ano anterior. Para um aluno do oitavo ano, por exemplo, vamos entregar um caderno com o conteúdo mais crítico do sétimo ano, para que ele relembre o conteúdo antes da prova. Precisamos identificar os problemas de aprendizagem de cada um. A ideia é que os professores apliquem as provas e repassem as notas apuradas pelo sistema. Em abril, a gente também vai enviar todo o material didático, que será confeccionado pelos nossos professores.

E o cartão material escolar? Quando as famílias de baixa renda poderão ter acesso ao benefício?

Nos próximos dias, sai uma portaria conjunta com a Secretaria de Desenvolvimento Social regulamentando a Lei do Cartão Material Escolar. Em seguida, vamos fechar o contrato com o BRB para confecção dos cartões de débito. Em março, faremos o cadastramento das papelarias e, logo, no início de abril, estaremos entregando os cartões. É importante destacar que será um cartão por família e será entregue na escola do aluno mais novo. Todos os valores referentes aos filhos daquela família irão para um mesmo cartão. Serão R$ 320 para alunos do ensino fundamental e R$ 240 para os do ensino médio. Estamos estimando que 41 mil famílias serão beneficiadas, com cerca de 69 mil alunos.

Uma grande dificuldade hoje nas escolas do DF é a superlotação das salas de aulas. Como a secretaria está administrando isto?

São mais de 450 mil alunos para serem atendidos em cerca de 700 escolas. Só este ano foram 11 mil novos alunos que ingressaram na rede. Estamos acabando com salas de vídeo, salas de leitura, procurando espaços para criar nova salas de aulas para poder atender a todos. No Paranoá, Mangueiral, Estrutural, Sol Nascente, a situação ainda é pior. Todas têm uma carência absurda de escola. No Plano Piloto, não temos tanto problema, porque aqui o drama são as escolas esvaziadas. No Gisno, por exemplo, você tem turmas vazias e aluno só no turno matutino. Mas a gente não pode continuar trazendo alunos das outras regiões para o Plano Piloto. A gente gasta R$ 1 milhão por mês, só com transporte de alunos do Paranoá, e mais R$1,1 milhão com os alunos de São Sebastião – sem contar que para os alunos é muito cansativo. A gente poderia pegar esse dinheiro e construir escolas mais próximas nas cidades onde esses meninos moram. E é isso que estamos planejando. Hoje, trabalhamos de forma emergencial, enfrentando os maiores para os menores problemas.

Existe orçamento e previsão de entrega de novas escolas?

Sim. Veja o caso do Sol Nascente. Lá são 100 mil habitantes e apenas uma escola e uma creche. Por isso, queremos construir lá pelo menos mais uma escola. Outras três cidades também já estão contempladas no nosso orçamento. Este ano, vamos inaugurar uma escola no Paranoá e iniciar as obras de pelo menos duas escolas profissionalizantes, na Estrutural e no Mangueiral. Também queremos iniciar obras de cinco escolas de ensino médio e anos finais [sexto ao nono ano).

 E as creches? Quando a população poderá contar com a inauguração de novas unidades?

Vamos buscar apoio dos parlamentares para liberarem emendas para construção de mais creches. A promessa de governos passados era de construção de 108 creches. Passados todos esses anos, o número de unidades concluídas não chegou nem a 50. Até o fim deste ano, queremos inaugurar pelo menos mais sei – duas delas em Samambaia, já com obras concluídas. Nós já estamos comprando os mobiliários para a inauguração. O dinheiro do FNDES [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação] está parado, o que dificulta muito. Não estão fazendo o repasse. Para se ter uma ideia, os livros didáticos estão atrasados. Esse é um outro motivo para termos nosso material próprio, elaborado pela nossa rede.

Por que o governo optou por experimentar a gestão compartilhada da educação pública?

Para que possamos realmente melhorar a educação no DF, precisamos ter professores e alunos motivados, ambiência escolar – aqui estamos falando de organização, limpeza, infraestrutura, respeito, de gostar de frequentar aquele ambiente. Gestão compartilhada ou não, existe uma ordem, uma organização, uma disciplina, respeito no relacionamento entre as pessoas, coisas básicas, ou que pelo menos, deveriam ser básicas, dentro de todas as escolas. Mas na verdade, hoje, um bom número de escolas não consegue criar esse ambiente. É um cenário real em função de um conjunto de fatores, inclusive, relacionados à família, que não faz a sua parte, mantendo-se ausente do processo de aprendizagem dos alunos. Então, quando temos escolas que os alunos são indisciplinados, com um grande número de casos de professores sendo ameaçados, aumento da violência com brigas e drogas, tem de se fazer algo. Muitos profissionais da educação estão adoecendo com isto. A escola está doente. Falta um lugar inspirador e acolhedor. Então, a gestão compartilhada vem para nos auxiliar a retomar esse ambiente, fazendo com que as coisas entrem nos trilhos. E essa minoria, que dava muito problema nas escolas, entenda que há regras e elas precisam ser cumpridas para o bem de todos. Nossa grande missão é fazer com que isto aconteça sem a necessidade da gestão compartilhada e em todas as escolas da rede.

Como o senhor avalia as duas primeiras semanas de gestão compartilhada nas quatro escolas da rede que vivem essa experiência?

É tudo muito novo. Não temos como avaliar resultados efetivos ainda. Mas o retorno da comunidade escolar é excelente. Só recebemos elogios. Então, nossa avaliação é muito positiva. Quem vai nas escolas e conversa com as pessoas, é quase impossível ficar contra o projeto. Estamos investindo pesado nesse projeto. São mais 20 novos profissionais e R$ 200 mil por ano para cada escola. Poderão investir em infraestrutura, material pedagógico, tecnologias. Ainda estamos alinhando com os policiais militares algumas questões. Mas o fato é que o modelo de gestão é encantador. Muito emocionante ir até essas escolas hoje e ver como as pessoas estão felizes e aliviadas.

A expectativa da população é muito grande em relação à gestão compartilhada, principalmente porque o desempenho dos colégios militares está bem acima dos outros. O segredo deles é a disciplina?

Ainda não temos resultados em números para fazer qualquer comparativo. A gente está sempre em contato com os diretores para fazer um acompanhamento bem de perto. É claro que a disciplina e a organização influenciam no tempo das aulas e no desempenho dos professores, e consequentemente, a gente acredita que os alunos vão melhorar também o desempenho deles. Mas as pessoas precisam entender que não é militarização das escolas. Elas seguem o mesmo conteúdo programático de toda a rede pública. A linha pedagógica é a mesma de outra escola pública.

E as escolas que não tiveram a oportunidade de receber a gestão compartilhada, o que será feito para melhorar o desempenho dos estudantes?

Vamos convocar agora 468 orientadores pedagógicos. Cada escola terá um orientador, isto nunca aconteceu na história da educação pública do Distrito Federal. Nós entendemos que esse é um profissional indispensável e faz um trabalho de acompanhamento do processo de aprendizagem, de disciplina e também de aproximação com as famílias. Vamos aumentar o número de aulas de língua portuguesa e matemática e entrar com novas estratégias de recursos escolares. Teremos um material didático da própria rede, elaborado por nossos professores. Vamos aplicar provas bimestrais, em algumas matérias, para diferentes séries, mas com mesmo conteúdo, para seguir avaliando a qualidade de nossos alunos e assim ajustar o que for necessário. Vamos lançar 14 hubs de inovação tecnológica, em parceria com a Apple e a Fundação Telefônica. O primeiro deles será apresentado à comunidade em abril.


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Ricardo Callado16/02/201920min

De volta à Presidência da Caesb, Fernando Leite tem como desafio ajustar o abastecimento no Distrito Federal, enquanto prepara projeto que dará bônus a quem não descartar óleo de cozinha queimado no meio ambiente

Poe Hédio Ferreira Júnior
Como é a qualidade da água que vem da rua e chega na torneira da casa do brasiliense? O novo presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), Fernando Leite, responde de pronto e com precisão: “Excelente, inclusive para consumo!” Com a experiência de três mandatos consecutivos à frente da empresa (entre 1999 e 2011), o engenheiro comemora o fato de o Distrito Federal estar além de outros entes federativos quando o assunto é água.

Seu retorno à companhia tem, entre outros desafios, o de cumprir um dos propósitos do governador Ibaneis Rocha: voltar a atender 100% da população com água tratada e saneamento básico. Atualmente esses índices são de, aproximadamente, 90% e 80%, respectivamente. Um dos obstáculos identificados pelo Governo do Distrito Federal é o lixo descartado no meio ambiente, o que compromete os lençóis freáticos e afeta diretamente a natureza. Além do óleo de cozinha jogado na pia depois de usado, o que dificulta o tratamento da água e encarece o serviço prestado pela empresa.

Nesta entrevista à Agência Brasília, Fernando Leite fala dos projetos da companhia em prol do consumidor, das ações para que o DF não enfrente de novo uma crise de racionamento, das obras do sistema Corumbá, da ampliação do laboratório de análise para atendimento à comunidade e do projeto que bonificará quem ajudar a companhia a economizar no processo de tratamento da água.

O que muda na sua volta à presidência da Caesb depois de 12 anos no comando da empresa?

A experiência talvez seja o fator mais importante, de ter passado, conhecido os problemas e estar voltando. Hoje há muita diferença, porque as soluções passam mais por tecnologia do que naquela época. Todo o aspecto que a gente discute para implementar, a gente busca uma solução tecnológica, digital. A nossa grande preocupação no ponto do desenvolvimento é essa transformação digital: na execução, na medição de diversos serviços, na gestão, na realização, no controle e na supervisão de obras; na operação de sistemas, no controle de perdas… Abre-se uma porta com muitas opções de tecnologia, para aumentar a eficiência da companhia.

De forma prática, como essa tecnologia interfere na vida do consumidor?

Uma coisa que afeta o nosso dia a dia: a eficiência no fornecimento de água. A qualidade da água pode ser gerenciada instantaneamente em vários pontos do sistema por meio de sensores. Da produção ao tratamento, até os reservatórios, têm-se sensores que atestam essa qualidade. Há sensores também que mostram onde se está perdendo água. Isso afeta diretamente a vida de todo mundo quando há um vazamento que impede a água de chegar com pressão na sua residência. Estamos atrás desses sistemas modernos e de soluções para essas tecnologias. Uma coisa muito importante pra nós – e na qual já estamos trabalhando – são os sistemas automatizados. As grandes estações são operadas por funcionários que, muitas vezes, gastam seu tempo à noite, em finais de semana, em que poderiam estar em lazer ou se dedicando a atividades mais nobres. As empresas no mundo inteiro hoje já estão partindo para isso.

Isso já está sendo aplicado aqui no Distrito Federal?

Já. Temos um centro de operação na Caesb que monitora com precisão várias partes do sistema, faz manobras… o futuro vai ser totalmente automatizado.

Quantas grandes estações de água tem o DF?

Nós temos a principal estação elevatória de água do DF em operação, atualmente, que é a do Lago do Descoberto. Além dessa, temos a de Santa Maria, a do Torto, o sistema Pipiripau em Planaltina, o Gama recentemente inaugurado, e a estrela da companhia que será o sistema produtor de Corumbá. Se você me perguntar qual a prioridade da Caesb hoje, eu vou dizer que é o sistema Corumbá. Temos lá uma obra gigantesca feita em parceria com a Companhia de Saneamento de Goiás (Saneago). Retomamos essa obra e estamos corrigindo todos os problemas que encontramos e fazendo um esforço tremendo para que entre em operação o mais rápido possível.

O que seria esse tempo?

A expectativa é este ano, mas temos pouco mais de 30 dias à frente da empresa. E essa obra é muito grande. Estamos buscando a solução de todos os problemas que encontramos – e são muitos. As linhas de transmissão de 138 quilovolts não estão prontas ainda. Muitas torres de transmissão grandes ainda estão no papel. Estamos nos esforçando, mas dependemos de elementos fundamentais da operação, como as válvulas, fabricadas nos Estados Unidos, e que a entrega precisa ser negociada com as empresas. Já temos representantes na fábrica fazendo inspeções, testes, portanto, estamos fazendo nossa parte para acelerar, mas há fatores que não dependem somente de nós.

Corumbá deverá ser a maior estação de água do DF?

Será a maior estação do sistema. Ela tem possibilidade de produzir 5,8 mil litros por segundo. Sua capacidade final é ainda maior. Para se comparar, a Caesb produz atualmente, com todos os sistemas produtores, 10 mil litros por segundo. Então, Corumbá já entrará com a metade, mas tem uma vazão de 120 mil litros por segundo. Ou seja, daí já teremos água por muito tempo.

Corumbá virá, então, como solução para o problema da falta d’água no DF?

Sem dúvida! É a solução definitiva. Nós vamos também implantar um grande sistema produtor para atender a região norte (do DF). Hoje temos um pequeno sistema que capta água do Paranoá de 700 litros por segundo. E vamos construir nos próximos anos um sistema para 2,2 mil litros por segundo. Isso visa abastecer e dar segurança hídrica para toda aquela região do Paranoá, dos condomínios, de Sobradinho…

Quais outras medidas de prevenção estão sendo tomadas para manter elevados os índices dos reservatórios de água e evitar o racionamento vivido no último ano?

O que regula os reservatórios são a alimentação dos rios e o que sai (para consumo). Têm outros fatores como evaporação. A grande preocupação da empresa é ter oferta de água dimensionada para atender os períodos mais críticos. E a companhia tem uma grande preocupação com a educação ambiental das pessoas. Ensiná-las, das crianças aos mais velhos, a não consumir água em excesso, evitar desperdícios na hora de lavar a louça, não lavando carros com água…

Essa reeducação conseguiu ser emplacada e mantida após o fim do racionamento?

Eu diria que foi um trabalho importante. Houve uma redução substancial no consumo. Mas isso tem que ser uma atitude permanente.

Novas campanhas educativas devem ser feitas?

Estão sendo feitas e vamos intensificá-las. Estamos há pouco mais de um mês de gestão. As campanhas devem ser permanentes e não feitas só em cima de problemas. O melhor lugar para se fazer campanhas educativas é nas escolas.

As crianças são os grandes agentes das campanhas educativas.

Grandes agentes, os grandes educadores. Elas educam os próprios pais a não consumirem água em excesso. Isso é importante para a Caesb. A produção de água é muito cara para o governo. Super dimensionar sistemas para atender consumos elevados não é bom para ninguém. Vamos fazer disso uma atividade rotineira da empresa. Mas há outras formas também de economizar água que é combatendo as perdas. A principal forma de perda são as ligações clandestinas, os chamados gatos. Isso ocorre de uma maneira geral em todo o território, mas de uma forma bem considerável e exagerada nos assentamentos pioneiros, nas invasões. Nós temos uma invasão chamada Santa Luzia que furta a água do abastecimento normal da Cidade Estrutural. Lá, hoje, as perdas de água são de 80%. Um problema que vai além com o furto de energia elétrica, com o impedimento do Serviço de Limpeza Urbana de recolher o lixo… E isso pode trazer outros sérios problemas, como contaminação no Parque Nacional dos lençóis freáticos. Nós temos conversado e o governador está muito preocupado e a qualquer instante deve anunciar medidas para regularização onde for possível regularizar, desativação onde não for possível…

Como é a qualidade na água que chega à casa dos brasilienses?

A qualidade é excelente. Ela sempre foi objeto de elogios. Nós temos um esmero muito grande com a qualidade da nossa água. Temos laboratórios bem equipados para aferir essa qualidade e há um rigor técnico muito grande das administrações em manter essa qualidade em alta.

Isso significa que essa água que sai da torneira pode ser consumida?

Sim. Ela sai da estação pronta para ser consumida da torneira. Existe uma preocupação do governo federal em padronizar a qualidade da água. O Ministério da Saúde define os padrões, então as empresas são obrigadas a cumprir sob pena de sofrer as sanções. O que a gente sempre orienta para o consumidor é que muitas vezes a água que passa pela caixa d’água é de pior qualidade do que a água que chega direto da rua. Por falta de limpeza e cuidado com a caixa d’água. É preciso cumprir uma rotina de limpeza da caixa. É muito comum ver algumas sem tampa. Imagina a contaminação que não tem em casos assim.

Essa atenção – e inspeção – deve ser feita, inclusive, por moradores de condomínios e prédios residenciais, que predominam nas áreas residenciais do Plano Piloto, não é isso?

Essa sua pergunta enseja uma colocação importante: a Caesb está concluindo os trabalhos para equiparação do laboratório de análise da água capaz de oferecer esse serviço à toda a comunidade. Se você mora em um condomínio horizontal ou vertical e quer saber a qualidade da sua água, é só cumprir as exigências da Caesb, ter um recipiente próprio para se fazer a coleta que a Caesb fará a análise dessa água. Inclusive água de poços cartesianos. Esse laboratório, chamado de R1, fica logo atrás do Palácio do Buriti, próximo à sede do Governo do Distrito Federal, ao DER. É um serviço que terá um custo e que será oferecido à comunidade. Estamos ampliando os equipamentos, pois o serviço existe, mas para análise interna. A nossa expectativa é que isso possa ser iniciado até o final do semestre.

Qual o grande desafio da sua gestão nestes quatro anos de governo que se tem pela frente?

Nessa volta à Caesb, nós temos muitos planos que são exatamente os planos do governador Ibaneis. Ele tem uma proposta, e nós vamos cumpri-la, que é deixar o DF com 100% de cobertura de água e 100% de coleta e tratamento de esgoto. Isso significa uma ação muito intensa, especialmente na periferia. O nosso programa de universalização contempla atingir, especialmente, o segmento mais pobre da sociedade que não tem esse serviço e que sofre mais por estar sujeito a doenças, por exemplo. É uma ação ousada, mas possível. Hoje a cobertura de água está em torno de 90% da população. E a de esgoto, que já foi de 100%, está em 80%, especialmente por causa desse crescimento desordenado na periferia. A nossa agenda positiva está focada nisso. Demandará muito investimento e muita obra.

Que orientação deve ser dada ao consumidor de Brasília para colaborar com o tratamento da água?

A primeira coisa é fazendo um descarte adequado do lixo. Nunca jogar lixo nas ruas porque isso vai ser levado para um lago ou rio. E ter todo o cuidado do mundo com o óleo de cozinha. As pessoas acabam o descartando na pia da cozinha. Isso não pode porque vai para a estação de tratamento de esgoto e compromete o tratamento da água. Nosso tratamento é biológico, então quando se joga o óleo queimado na água, ele mata as bactérias que fazem o trabalho de depuração nas estações de tratamento de esgoto. Daí o cuidado com o lixo é fundamental.

O que deve ser feito com esse óleo usado na cozinha para fritura de alimentos e que precisa ser jogado fora?

Deve ser guardado em vasilhames próprios e entregues em empresas que fazem esse tipo de coleta. Mas a Caesb tem um programa sensacional. Nós construímos uma planta que é capaz de produzir até 2 mil litros de óleo biodiesel por dia, dependendo dos turnos de trabalho, por meio do óleo de cozinha. Nós estamos relançando um projeto, chamado Projeto Biguá (que é o nome de uma ave). O objeto é retirar o óleo de cozinha do sistema de esgoto e levar para a Caesb onde temos uma planta que irá produzir o óleo biodiesel.

Como o consumidor deverá fazer?

Nós vamos montar um sistema de coleta desse óleo e vamos dar um bônus (como desconto na conta) para quem fizer essa coleta e entregar na Caesb. É um plano que já está pronto e brevemente nós relançaremos o Projeto Biguá. Vamos estabelecer um valor por litro. É uma operação de ganha ganha. Outro subproduto desse tratamento do óleo de cozinha é uma glicerina que se usa para produzir sabão. Então temos aí dois produtos importantes.

Por que esse óleo descartado na água é um problema?

O óleo de cozinha queimado, quando lançado na rede, traz um estrago grande à estação de tratamento, porque isso tem custo. Vai demandar mais energia elétrica, mais tempo, para tratar a água. Se for evitado esse dano, se estará economizando recursos. E essa economia volta para o cidadão. Outras coisas também não devem ser descartadas pois retardam esse tratamento, como borra de café. No vaso sanitário também não deve ser descartado lixos de nenhuma espécie. Em algumas tubulações até o papel é um problema porque causa entupimento. Vaso sanitário é água e dejetos. O restante é no lixo.

(Com informações da Agência Brasília)


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Ricardo Callado09/02/201915min
Secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Mateus Oliveira. Fotos: Acácio Pinheiro / Agência Brasília

Secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Mateus Oliveira fala sobre os avanços neste primeiro mês de gestão e os planos para reestruturar a capital nos próximos quatro anos

Por Hédio Ferreira Júnior, da Agência  Brasília
Não é de hoje que lojistas da W3 sonham com a renovação de uma das vias mais tradicionais do Plano Piloto. Nem que a área central de Brasília, em meio a órgãos públicos, prédios monumentais e um intenso comércio espera há anos por uma renovação. A ocupação ordenada da quase sexagenária capital – que completa 59 anos em 21 de abril – é uma das propostas do governo Ibaneis Rocha para organizar a cidade, gerar emprego e renda e aquecer a economia do Distrito Federal.

À frente da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, o advogado Mateus Oliveira veio da iniciativa privada com um olhar focado no avanço. De perfil técnico, o mestre em direito urbanístico e estreante na vida pública fala com propriedade dos temas tratados pela secretaria. Ao assumir a pasta em 1° de janeiro, sentiu os entraves jurídicos e o tratamento burocrático dados a processos de construção e ordenamento como fatores limitadores do avanço urbanístico da cidade ao longo dos últimos oito anos.

A meta agora, promete o secretário, é desburocratizar, quebrar a cadeia cíclica de propostas que não saiam do papel – nem do lugar – e contribuir para a modernização de Brasília.

Nesse sentido, o governador Ibaneis e Mateus se preparam para anunciar nos próximos dias o SOS DF Destrava: um plano de ações emergenciais do Governo do Distrito Federal que ajudarão a, entre outras coisas, acelerar construções ordenadas e revitalizações esquecidas nos escaninhos das últimas gestões.

A criação de bairros planejados e com infraestrutura adequada, já prevista em lei, é um dos focos do GDF. “A falta de segurança jurídica sempre foi um dos pontos principais de barreira ao desenvolvimento econômico do Distrito Federal”, observa o secretário.

À Agência Brasília, Mateus Oliveira fala sobre as conquistas obtidas já nesse primeiro mês de governo e o que está sendo preparado para os próximos anos.

Em que condições o sr. encontrou a antiga Secretaria de Gestão do Território e Habitação, atual Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação?
Historicamente, essa é uma secretaria que nos últimos oito anos sofreu muito com entraves jurídicos. E a falta de segurança jurídica sempre foi uma das barreiras ao desenvolvimento econômico do Distrito Federal.

Que tipo de entraves?
De uma legislação que ainda é uma colcha de retalhos, muito antiga, desde a criação do DF. E que vem sofrendo questionamentos do Ministério Público. Passam de 20 leis declaradas inconstitucionais pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios na nossa área urbanística nos últimos dez anos. E que, por isso, caíram.

Quais, por exemplo?
O Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) foi considerado, em parte, inconstitucional. O Plano Diretor Local do Gama foi integralmente; o do Guará também. Além de uma série de leis de lotes específicos que também foi considerada inconstitucional… Todo o contexto nosso de desenvolvimento urbano da cidade, muito atrelado ao desenvolvimento econômico, esteve numa situação de completa insegurança jurídica. E pouco se avançou na construção de um ambiente econômico, de negócios com segurança jurídica para possibilitar tanto o crescimento urbano ordenado – diferente do desordenado vivido pelo DF, com invasões e ocupações irregulares e que não se conseguiu alcançar um nível de legislação que possibilitasse essa segurança jurídica nem a criação de alternativas a essa situação.

O que a sua chegada na secretaria pode mudar?
O diagnóstico do governador e a minha escolha se deram justamente em razão desse contexto: da necessidade de um secretário técnico, especializado nessa linha de atuação e com conhecimento desses entraves. O que muda, no primeiro momento, é a aprovação de duas novas leis bem importantes em que atuamos junto à Câmara Legislativa ainda durante a transição: a Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS) e o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE). A primeira regulamenta as regras de construção de mais de 360 mil lotes no DF e substitui mais de 400 normas. Um alcance enorme. E a segunda vem como uma ferramenta para a revisão do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) – que passa a ser uma das nossas principais missões do ponto de vista de legislação. Há também outra lei importante que é a aprovação do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB) – que é como a LUOS, porém relacionada à regulamentação dos imóveis da área tombada do Plano Piloto. Nestes dois casos trabalharemos para a aprovação o quanto antes na Câmara Legislativa.

O que isso impacta na vida do morador de Brasília?
Positivamente. A LUOS, por exemplo, passa a permitir desde a atividade de corte e costura na casa da dona Maria em Samambaia até a permissão de comércio de grande porte em áreas onde não se poderia ter. Isso destrava uma série de atividades comerciais e de grandes empreendimentos.

“Precisamos impulsionar a revitalização e requalificação de espaços públicos. E a gente identificou uma série de projetos prontos na secretaria, mas que ainda não foram implementados”Mateus Oliveira, secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação

Como atua a secretaria?
Baseada em três pilares: planejamento urbano, aprovação de projetos e a regularização fundiária e novos parcelamentos. O primeiro é o que chamamos de pensar a cidade. Está no dia a dia da gestão, mas também no reflexo da criação de novas leis e revisão das leis atuais, pensando no crescimento da cidade de forma a gerar mais empregos, criar cidades mais sustentáveis e inclusivas. O segundo trata desde aprovação de construção de uma casa em Sobradinho, por exemplo, até a de um shopping na Epia. Nele, já tivemos um resultado recorde de 82 projetos aprovados para construção na cidade – sendo 20 de grande porte, como hospitais, empreendimentos imobiliários, galpões indústrias… Isso tudo em janeiro. Um total de meio milhão de metros quadrados de área de construção na cidade. Num comparativo, em janeiro de 2015, no primeiro mês da gestão passada, foram aprovados.

Foi preciso para isso flexibilizar a legislação?
De forma alguma. Sem nenhum tipo de flexibilização das leis nem inovação. Foi basicamente não incluir no “decretão” de exoneração do quadro de servidores comissionados aqueles técnicos que, durante a transição, identificamos capazes de manterem a fluidez do trabalho. Só em uma das obras aprovadas contratou mais de cem trabalhadores. Precisamos dar celeridade aos processos, tornando-os mais céleres.

E o terceiro pilar de regularização fundiária?
Neste está o trabalho de tornar legal ocupações desordenadas que aconteceram na história do crescimento do DF. Em 2009, foram definidas no Plano Diretor de Ordenamento Territorial 82 áreas de regularização. Precisamos acabar com a lógica de que a invasão gera o direito a regularização. Iremos trabalhar na legalização apenas no que foi previsto no plano de dez anos atrás. Destas 82, muito pouco se avançou. Não chegam a 10%. Eu que venho da inciativa privada fico impressionado como a coisa estava desorganizada.

O governador Ibaneis se prepara para anunciar na próxima semana um pacote de medidas para a área de desenvolvimento urbano. O que deve fazer parte dessas ações que serão apresentadas?
Uma delas é a criação de postos avançados da Central de Aprovação de Projetos (CAP). Todos os projetos do DF são aprovados aqui na secretaria, o que exige que o cidadão interessado em acompanhar o andamento do seu pedido tenha que vir ao Plano Piloto em busca de informações. Percebemos durante a transição que o serviço gerado na CAP está muito distante da população. Vamos, então, criar dez postos avançados de atendimento em macrorregiões para tirar dúvidas, recebendo documentação, discutindo exigências…

E o que fazer diferente de tudo que já foi feito para essas áreas da cidade ainda sem regularização incluídas no PDOT de 2009?
Estamos anunciando a criação, junto com os postos avançados, da Subsecretaria de Parcelamentos e Regularização Fundiária. Estamos falando de Vicente Pires, da subida do Colorado, do Jardim Botânico. Tínhamos um núcleo de cinco servidores para cuidar de tudo isso, sem estatus de subsecretaria que é importante, inclusive, para a articulação com outros órgãos do governo como a Terracap, o Codabh e o Instituto Brasília Ambiental (Ibram). Historicamente, os novos parcelamentos, que nada mais são do que a criação de novos bairros, foram tratados como exceção. Mas aí se pergunta: “Poxa, novos bairros? O DF já está numa situação tão caótica em termos de urbanismo.” Mas essa é a lógica de que o novo bairro deveria ser a regra porque nasce planejado, com estudos técnicos, com licenciamento ambiental, com infraestrutura… O mesmo plano diretor de 2009 já definiu áreas em que é possível a criação de novos bairros.

Como tirar do papel projetos de revitalização de áreas centrais com grande fluxo comercial da cidade?
De fato, precisamos impulsionar a revitalização e requalificação de espaços públicos. E a gente identificou uma série de projetos prontos na secretaria, mas que não foram implementados – às vezes por falta de recursos, outras já com recursos, mas que não foram priorizados pelo governo para aquilo acontecer. Por exemplo, a revitalização do Setor Médico Hospitalar Sul que já tem projeto, já tem recursos disponíveis e está sendo encaminhado para a Novacap e a Secretaria de Obras darem início ao processo de licitação.

O que deverá ser feito?
A modernização de todas as calçadas e vias pensando na acessibilidade, criação de praças, arborização, paisagismo…

E para o Setor Comercial Sul e a W3?
Também está dentro dessa lógica de rever esses projetos, ver o que há de recursos e se está pronto para ser encaminhado.


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Ricardo Callado30/01/20195min

O ano letivo do Serviço Social da Indústria (SESI) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) começou na última semana no estado de Goiás. A expectativa é que sejam realizadas cerca de 250 mil matrículas em 2019, nos níveis de formação inicial e continuada; educação profissional e técnica e educação superior.

Preocupado com o destino das atividades realizadas, tanto pelo SESI quanto pelo SENAI, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), Sandro Mabel, respondeu a pontos que, segundo ele, garantem a eficiência dos serviços realizados pelo sistema S.

Por que existe uma preocupação das instituições e de companhias ligadas à indústria de que esse corte nos recursos aconteça?

“Nós temos um objetivo para os próximos quatro anos de tornar os alunos do SESI e SENAI de Goiás a Coreia do Sul na educação profissionalizante. Vai ser o melhor treinamento, o melhor aperfeiçoamento, nós estamos trabalhando duro nesse sentido. É por isso que nós temos a preocupação com essa ‘facada’ que o Paulo Guedes quis dar ou fala em dar no sistema. É porque ele tem que dar facada em muitos outros lugares, menos na educação da indústria, porque o Brasil precisa ter competitividade. ”

Qual a situação atual do setor industrial no Brasil e de que forma a manutenção dos recursos pode garantir um futuro melhor para o país?

“Só para ter uma ideia, a Argentina produz 60 milhões de toneladas de soja e ela industrializa 40 milhões de toneladas. O Brasil produz 120 e industrializa 40. Isso mostra o tanto que estamos atrasados. Quer dizer, a mesma coisa que a Argentina com a metade da produção que a Argentina tem em relação ao Brasil. Então o Brasil precisa mudar essa concepção. E essa concepção de industrialização e de competitividade passa pela profissionalização. E o sistema s, de uma maneira geral, traz essa condição de profissionalização que o governo federal não tem feito. ”

Na sua avaliação, qual o diferencial positivo do SESI e do SENAI em relações a outras instituições de ensino?

“Menino na nossa escola repete de ano. Não tem esse negócio de passar menino que não foi bem. Não foi bem, repete de ano. Não tem essa que nem na escola pública que hoje o menino tem que seguir. Vai passando de um ano para o outro, mesmo ele não tendo capacidade vão empurrando o menino para frente. Chega lá no fim, é uma educação péssima. A nossa não, o menino não fez, repete de ano. E se repetir duas vezes sai da escola. Quer dizer, a seleção nossa é cada vez maior. Então os bons são formados aqui pelo nosso sistema S, e são os que vão, certamente, fazer a diferença, principalmente para a indústria. ”

Estudar no SESI ou no SENAI pode ser a garantia de conseguir um emprego com mais facilidade?

“Nós garantimos que os alunos que passam na nossa escola, se formam e se profissionalizam dentro das nossas escolas, 80% deles saem empregados. Então as empresas buscam esses garotos que são profissionais dentro das nossas escolas enquanto eles nem formaram ainda. Ele já sai com essa visão de que vai trabalhar em uma indústria um dia. E as indústrias saem buscando ele para isso. Enfim, nós temos aí uma série de ações, de cidadania sobre tudo. Ele não sai só uma pessoa treinada profissionalmente. Ele sai um cidadão mais preparado, mais disciplinado e, isso daí toda indústria quer.”


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Ricardo Callado06/01/20199min
Paulo Kramer (Foto Elza Fiuza/Agência Brasil)

Para cientista político, popularidade é oportunidade para reformar

Por Gilberto Costa

O presidente Jair Bolsonaro tem oportunidade histórica de fazer as reformas estruturantes na economia brasileira e reverter vícios do chamado “presidencialismo de coalizão”. Deve fazer isso logo no início do mandato, aproveitando a sua popularidade e a alta capacidade de comunicação direta. As avaliações são do cientista político Paulo Kramer, professor aposentado da Universidade de Brasília e, há 25 anos, assessor parlamentar e consultor de empresas para análises políticas. Kramer trabalhou como consultor voluntário da campanha de Jair Bolsonaro no Grupo de Brasília, coordenado pelo general Augusto Heleno, desde o dia 1º janeiro ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.
Na entrevista à Agência Brasil, o especialista expõe que o governo recém-empossado pode fazer de imediato a reforma da Previdência Social e inaugurar um relacionamento com o Congresso Nacional, articulado pelas bancadas temáticas, menos dependente de troca de favores por meio de emendas parlamentares ou distribuição de cargos.

Abaixo os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil: O que esperar do Congresso que assume em menos de um mês?

Paulo Kramer: É um Congresso que veio na esteira de uma grande renovação, que por sua vez refletiu o anseio de mudança do eleitorado, a indignação com a corrupção, e a impaciência com a longa e profunda crise econômica legada pelo petismo. É uma nova classe política muito sensível à movimentação das redes sociais.

 

Agência Brasil: O novo Congresso tem perfil colaborativo para a agenda de reformas?

Paulo Kramer: Esse Congresso reflete em grande medida as prioridades que estão na cabeça da maior parte da sociedade brasileira. É um Parlamento mais conservador nos costumes, mais rígido no que diz respeito ao combate ao crime organizado, mas não é necessariamente um Congresso mais reformista. O Brasil é um país pouco escolarizado, a educação é muito ruim. Uma população assim tem dificuldade em associar causa e efeito. A maioria da população não vê, por exemplo, a reforma da Previdência Social como uma prioridade, só que é uma prioridade. Se o rombo fiscal crescente que o déficit da Previdência traz não for resolvido, não haverá dinheiro para outras prioridades como educação, saúde, segurança, etc.

 

Agência Brasil: Como será a tramitação da reforma da Previdência Social?

Paulo Kramer: A reforma da Previdência, pelo longo tempo que ela ficou exposta ao debate público, se avançou consideravelmente no grau de compreensão da sociedade ou, se não, no grau de compreensão das elites formadoras de opinião quanto à necessidade e urgência de fazer a reforma. Existe um caminho que já foi percorrido que o governo de Jair Bolsonaro poderá aproveitar e até acentuar isso em razão da comprovada capacidade de comunicação do presidente da República. Na campanha, ele usou muito bem as redes sociais para falar, sobre a cabeça das elites políticas e dos meios de comunicação tradicionais, diretamente com o grande público. Se ele estiver convencido dessa necessidade, que é martelada diariamente pela equipe econômica, acredito que a reforma avançará sim e chegará a bom termo.

 

Agência Brasil: O senhor acredita que avança neste semestre?

Paulo Kramer: Acredito que sim. A janela de oportunidade para fazer a reforma é curta, fugaz e passageira, porque existe uma tendência natural com o passar do tempo de que as pessoas percebam um hiato entre as suas aspirações e a realidade, a capacidade dos governos de entregarem o que se esperava. Aí a popularidade vai diminuindo. Então, tem que ser o mais rápido possível sim.

 

Agência Brasil: O que o senhor acha que vai acontecer com chamado presidencialismo de coalizão?

Paulo Kramer: Nesses últimos 30 anos, ele foi sofrendo distorções, em grande medida ligadas à sua própria estrutura. A Constituição [de 1988] criou um regime que é presidencialista mas guarda semelhanças importantes com o sistema parlamentarista, no qual é preciso distribuir pastas e postos aos partidos representados no Congresso de maneira a ter suas proposições aprovadas pelo Congresso. Com o tempo, isso gerou muita distorção: toma lá, dá cá, uma barganha que foi crescentemente percebida como ilegítima porque deu muita margem para corrupção, a troca de emenda de orçamento, e de cargos públicos para votação de proposições do Executivo. O presidente Bolsonaro chega com um mandato claro para superar, ou pelo menos corrigir essas distorções mais flagrantes do presidencialismo de coalizão. Como existe uma pressão permanente da opinião pública, pelas redes sociais e pelos meios de comunicação, acredito que possamos caminhar sim para uma política mais limpa e transparente.

 

Agência Brasil: Mas haverá resistência no próprio Congresso?

Paulo Kramer: Sim. Houve uma grande renovação, mas uma parte do velho Congresso continua. Mesmo aqueles que chegaram nessa onda de mudança têm aspirações de continuar na carreira política e trocar de posto. Até agora, isso foi feito dentro daqueles mecanismos de barganha do presidencialismo de coalizão. Contra isso grande parte do eleitorado se insurgiu.

 

Agência Brasil: Há quem defenda que o governo tenha relacionamento preferencial com as bancadas temáticas, como empresários do agronegócio, evangélicos, da segurança pública. Que vantagem tem essa opção em vez do relacionamento com os partidos políticos? Dá para fazer isso visto que os regimentos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal são fundados na existência dos partidos?

Paulo Kramer: Dá se o governo souber aproveitar a janela de popularidade. Mas você tem razão. Está tudo centrado, regimentalmente falando, nas estruturas partidárias. Agora, os líderes dos partidos [no Congresso] e os presidentes das legendas estão atentos à boa vontade e lua de mel da população com o governo. Enquanto esse momento durar, acredito que os líderes partidários tenderão a aceitar as regras impostas pelo governo.


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Ricardo Callado25/10/201812min

Por Fred Lima

Faltando quatro dias para os brasilienses irem às urnas escolher o próximo governador do Distrito Federal, o candidato do MDB, Ibaneis Rocha, optou por uma agenda mais tranquila na reta final. Com 50% de diferença dos votos válidos em comparação com o atual governador Rodrigo Rollemberg (PSB), de acordo com a última pesquisa Ibope divulgada, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional DF (OAB-DF) resolveu não participar mais dos debates que estavam programados em rádios e emissoras de tevê, alegando que o adversário baixou o nível nos últimos dias de campanha.

Em entrevista concedida ao Blog do Fred Lima, Ibaneis fala sobre a disseminação de fake news envolvendo o seu nome. Além disso, o advogado revela como será a relação de seu provável governo com a Câmara Legislativa do DF, com os parlamentares do DF no Congresso e com a imprensa local. Confira:

O senhor começou a campanha de primeiro turno pontuando 2% nas pesquisas e teve um crescimento espetacular na reta final. Qual foi a fórmula ascendente utilizada para se tornar o franco favorito na eleição?

Desde o início, acreditei que a população do DF queria uma proposta nova. Por já conhecer bastante os problemas da cidade e gostar de trabalhar, saí às ruas para ouvir o povo e levar o meu projeto de recuperação da capital. Isso foi aceito pela população e acho que a minha origem nordestina contribuiu, pois Brasília é uma cidade que tem essa origem, e o povo nordestino está em todas as regiões do país. Cheguei até aqui trabalhando bastante.

Após o resultado da votação, o senhor afirmou que não queria o apoio da turma do passado. Estava se referindo ao deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF) e a ex-deputada distrital Eliana Pedrosa (Pros)?

Na condição de ‘outsider’ da política, poderia ter aberto mão de todos os apoios e mesmo assim teria certeza que estaria bem nas pesquisas. Porém, repensei e percebi que Brasília vem vivendo de muita divisão. As últimas eleições fez com que a cidade permanecesse dividida. Vejo uma oportunidade impar de unir todo o DF. Temos deputados distritais, federais e senadores eleitos pelas mais diversas agremiações partidárias. Vou necessitar do apoio de todos eles para organizar a cidade. Fiz um ato de responsabilidade no momento em que recebi esses apoios. As exigências que coloquei para recebê-los foram bem compreendidas. Ninguém veio me pedir cargos. O compromisso é de que todos vão participar da transição, trazendo os seus melhores técnicos. Serão nomeados aqueles que conseguirem se destacar durante esse processo. O ex-distrital Alírio Neto (PTB), por exemplo, propôs um projeto interessante de criação de um centro de reabilitação de pessoas com deficiência, algo que pode ser bom para a cidade, que estava no programa de governo deles e que assimilei ao nosso.

Já decidiu quem apoiará ao Palácio do Planalto?

Ainda não. Quase todos os meus eleitores estão com o Jair Bolsonaro (PSL). A minha intenção é a de que o DF não seja dividido. Quero continuar um pouco afastado dessa discussão porque preciso unir a cidade em torno da valorização das pessoas e da vida.

Se por acaso o presidenciável Bolsonaro for eleito presidente da República, como será a sua relação com o novo presidente, caso vença?

Será perfeita. Não tenho nenhuma dúvida disso. Ele é um homem do parlamento, casado com uma moradora do DF. Ele tem residência aqui como deputado federal. Tenho certeza de que ele tem carinho pela nossa cidade e nos ajudará a solucionar os problemas existentes. Se eleitos, teremos um excelente relacionamento.

A crítica que muitos fazem ao atual governador é a de que ele deixou de dialogar com diversos setores da sociedade. O então candidato Rogério Rosso (PSD), que te apoia, disse que se fosse eleito governador iria cobrar que todos os secretários saíssem de seus respectivos gabinetes e despachassem nas ruas. O senhor incorporou a proposta em seu programa de governo?

Essa proposta não foi incorporada. Espero que os secretários estejam abertos com a sociedade, dialogando e trazendo resultados. Isso pode ser feito de dentro do gabinete. Não necessita ser o tempo todo nas ruas. Gestão também se faz de dentro do gabinete. Tenho convicção da maneira como isso vai ser feito. Saberei delegar, entregar os instrumentos e cobrar resultados de todo o secretariado.

O senhor tem sempre elogiado nos debates a cobertura da imprensa nas eleições. Como será a relação de um provável governo Ibaneis Rocha com a mídia local? 

Vai ser excelente. Venho de uma instituição que é a OAB, que sempre trabalhou de braços dados com a imprensa nos momentos mais difíceis da sociedade brasileira. Tenho certeza que nosso diálogo vai ser sensacional. Sou aberto à crítica construtiva, que ajuda a crescer. A imprensa do DF é responsável. O relacionamento será maravilhoso.

Alguns parlamentares da bancada do DF no Congresso Nacional reclamam do relacionamento distante do atual governador com o grupo. Adotará uma nova postura em favor do diálogo com os deputados federais e senadores?

Sim, com harmonia e independência, como manda a Constituição. Esse relacionamento tem de ser bastante próximo. Os congressistas têm acesso ao orçamento da União e poderão me ajudar junto aos ministérios, trazendo recursos. Vai ser um relacionamento respeitoso e produtivo.

Se vencer a eleição, seu governo terá maioria na Câmara Legislativa. Abolirá o “toma lá, dá cá” que sempre marcou as relações entre o Executivo e Legislativo?

Isso não engrandece nem ao deputado que recebe nem ao governo que dá. Tem de ser uma relação transparente, em favor da sociedade. Teremos a oportunidade de implementar um novo estilo de governar, dando exemplo para todo o país.

O ex-governador Joaquim Roriz venceu duas eleições ao Buriti pelo MDB, seu partido. Um possível governo Ibaneis será parecido com o jeito Roriz de governar?

O Roriz produziu muito para a cidade, deixando dois legados importantes: um olhar social profundo, cuidando dos mais necessitados; e um olhar visionário, por exemplo, a construção de Corumba IV e do Metrô. Acredito no estilo de governo dele. No entanto, estamos em outros tempos. Precisamos modernizar o sistema de gestão. Obter recursos não é mais fácil como naquela época. Entretanto, não me falta vontade de realizar e atender as pessoas mais pobres, trazendo um novo ciclo de desenvolvimento para Brasília.

Na segunda-feira (22), o senhor desistiu de participar dos debates e acionou a PF, o MPE e o TRE-DF pedindo aos órgãos que investiguem a produção e disseminação de conteúdo falso que o relaciona ao crime de pedofilia. Na sua opinião, quem está por trás disso?

Só tenho um interessado em prejudicar a minha campanha. Não fui eu que desisti dos debates, mas o governador que me fez abdicar por ter parado de debater e partido para a agressão. Basta que assista ao programa eleitoral, onde ele abandonou propostas e soluções para melhorar os problemas da cidade. Não é por minha vontade, mas sim para eliminar a possibilidade da população de ser enganada com essas mentiras. Participei de todos os debates e entrevistas. Sempre estive à disposição da imprensa. Agora, ele entrou em desespero, produzindo coisas horríveis e nojentas. É deprimente ver uma pessoa que tem tantos anos de vida pública partir para esse tipo de ataque. Peço desculpas às emissoras de rádio e tevê, que se prepararam para promover os debates, mas o governador baixou o nível.

Estamos a quatro dias da eleição. Qual mensagem que o senhor quer deixar para a população do Distrito Federal?

Primeiramente, meu agradecimento ao povo brasiliense. Nunca imaginei que fosse tão feliz nesses 70 dias de campanha. Chego ao final maior que quando comecei, não pela quantidade de votos que posso receber, mas pela pessoa que sairei dessa caminhada. Aprendi muito com pessoas sofridas, além de ter ouvido categorias e empresários. Aprendi bastante sobre o DF. Tenho certeza de que vou colaborar com a cidade. Meu agradecimento a todos por esses dias de campanha. Vote 15 no próximo domingo para mudarmos o rumo da capital!


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Ricardo Callado23/09/20189min

Obra mostra que a mentira não tem ideologia

Por Gilberto Costa

O ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill citava que havia “uma enorme quantidade de mentiras circulando pelo mundo, e o pior que metade delas é verdade”. Mais cáustico, o brasileiro Millôr Fernandes escreveu “ninguém é dono da verdade. Mas a mentira tem acionista à beça”.
O recém-lançado livro (da Agência Lupa) e Chico Otávio (do jornal O Globo) confirma os ditos. Os dois jornalistas percorreram os 100 últimos anos da história do Brasil e mostram as mentiras ditas aos brasileiros por presidentes de diversos matizes ideológicos. Algumas mentiras não podiam ser desmentidas ou circularam tanto que tiveram alguma veracidade à época.A ideia de fazer o livro, lançado pela editora Intrínseca, surgiu quando Cristina visitou nos Estados Unidos a redação do site Politfact e viu pendurado na parede um pôster com “grandes besteiras ditas por presidentes americanos”. Ela achou uma grande sacada e comparou, antes de convidar Chico Otávio para a empreitada: “A gente tem um acervo mais bacana que eles”.

A seguir principais trechos da entrevista dos dois autores à Agência Brasil.

Agência Brasil – Como fizeram para selecionar as mentiras?

Cristina Tardáguila – Quando começamos a trabalhar, eu queria abarcar o máximo possível de mentiras, o máximo possível de presidentes… Entrou aí a visão estratégica da editora de fechar em recortes. Decidimos que não podia faltar, de forma nenhuma, da redemocratização pra cá. Mas não dá para falar que a mentira começou da redemocratização pra cá, e nem dá para dizer que é algo só de presidentes eleitos [pelo voto direto]. Assim, decidimos ampliar a pesquisa para os ditadores, para os militares. Aí, o Chico [Otávio] entrou no projeto, com todo conhecimento que tem sobre a ditadura militar. Ficamos com vontade de levar até mais longe, pensamos em fazer desde a República Velha. Mas o recorte definitivo acabou sendo os últimos 100 anos, de Artur Bernardes para cá.

Agência Brasil – As mentiras ditas na ditadura eram muito diferentes das mentiras após a redemocratização?

Chico Otávio – Mentir na ditadura é mais fácil. Ela pode ser mais grotesca porque ninguém vai contestar. A mentira na ditadura é mais descarada porque não tem o contraditório. As vozes estão caladas. Então, é fácil mentir. Eram muito mais toscas, muito mais escancaradas, sem a menor preocupação com algum tipo de justificativa. Hoje, são mais disfarçadas, mais camufladas, mais difíceis de se camuflar.

Agência Brasil – A mentira na política é universal? É própria de regimes políticos modernos?

Cristina Tardáguila –Não precisa nem ser checadora para dizer isso: a mentira não respeita sexo, mentem homens e mulheres. Ela não respeita partidos políticos, não tem nada a ver ser de centro, de esquerda e de direita. Não tem nada a ver com idade, ou seja, jovens e velhos mentem. Ela não tem nada a ver com passaporte, a nacionalidade. Mentem os argentinos, os espanhóis, os italianos, os americanos. Mentem os asiáticos. Mentem os africanos. Não tem nada a ver com raça, com sexo, com posicionamento político. A mentira é completamente intrínseca à política, e ela não é nova.

Chico Otávio – Na noite de lançamento do livro, nos perguntaram sobre a validade da mentira para determinadas situações. “Será que a mentira se justificaria em determinados momentos?”. Até Platão citaram… Acho que o papel do repórter é enfrentar a mentira a todo custo.

Agência Brasil – É possível fazer uma tipologia das mentiras, e indicar aquelas que mais facilmente colam?

Chico Otávio – Não existe uma regra para graduar a mentira. Quanto maior e mais sofisticada, maior é o desafio do jornalismo para desmontá-la. Eu cubro a [operação] Lava-Jato há algum tempo. São crimes sofisticados, calcados em mentiras que a gente tem que desconstruir. Mentiras que envolvem advogados muito preparados, operadores financeiros experientes. Isso é uma mentira bem estruturada que a gente tem que fazer um tremendo esforço para desconstruir

Agência Brasil – Nesses tempos de notícias falsas, é mais fácil uma mentira colar no Brasil do que em sociedades mais letradas, com melhores índices de leitura?

Cristina Tardáguila – A notícia falsa não dialoga com seu lado racional. Ela não dialoga com o que você conhece de forma estruturada. Vai dialogar com suas crenças, com seus desejos e com os seus gostos. Sai do nível racional, vai para o nível do emotivo e isso não tem nada a ver com instrução. É claro que as pessoas mais educadas têm mais capacidade de duvidar do que os iletrados. Mas a conexão da notícia falsa com esse mundo irracional, de fundo emocional, é aquilo que mais põe dificuldade para combate-la.

Agência Brasil – Os serviços de checagem dos jornalistas atrapalham as mentiras?

Cristina Tardáguila – O mundo da checagem se divide em dois. Um é o grupo do fact checking, que verifica o que o político diz, e dá um falso nele. O outro lado é esse chorume da internet que você não sabe bem quem falou. São imagens e informações truncadas. No dia que o [Jair] Bolsonaro sofreu a facada, duas imagens falsas circularam na internet. Em uma, colocaram o Adélio [Bispo de Oliveira, autor do atentado,] em uma passeata do PT. E em outra tinha o Bolsonaro caminhando e sorrindo em um hospital de Juiz de Fora. As duas informações são falsas. A gente fez 35 checagens nesse dia, marcando que essas imagens eram falsas, e em 72 horas quinze delas haviam sido retiradas. Tem impacto, inegavelmente. Poderia ter mais, sim.

Agência Brasil – Estamos ouvindo muita mentira nessa campanha eleitoral?

Chico Otávio – Salvo engano, a mentira perdeu a força. Ela migrou da boca dos candidatos para as redes sociais para esse trabalho meio clandestino de contrainformação. Eu percebo o uso da mentira nas redes sociais como um instrumento de contrainformação. Com relação aquilo que é dito pelos candidatos, acho que eles estão mais tímidos porque eles sabem que os instrumentos de checagem estão muito fortes. Eles têm redobrado o cuidado com os discursos, nos debates e nos palanques.


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Ricardo Callado02/09/20189min

Em livro, cientista político resgata e analisa campanhas eleitorais

Por Gilberto Costa

O livro 25 Anos de Eleições Presidenciais no Brasil, lançado em julho passado pela Appris Editora, de Curitiba, faz o registro e análise do maior período de estabilidade democrática que o Brasil desfrutou em sua história – um quarto de século em que a população foi chamada para escolher livremente, por sete vezes, o presidente da República.
A publicação conta com artigo de 23 pesquisadores das principais universidades do país (USP, UFRJ, UniRio, UERJ, UFPR e UFMG) e aborda tendências eleitorais, evolução de votos, financiamento de campanhas, horário eleitoral e papel da imprensa. Os textos foram organizados pelos cientistas políticos Argelina Cheibub Figueiredo e Felipe Borba. Por WhatsApp, Borba deu a seguinte entrevista à Agência Brasil.

 

Agência Brasil: As eleições e campanhas que tivemos desde a redemocratização pós-regime militar são muito diferentes daquelas do passado?

Felipe Borba: Naquele primeiro momento, o voto, o presidente, era eleito com maioria simples dos votos. Juscelino [Kubitscheck] foi eleito com 35% dos votos, o que naquele momento gerou uma crise de legitimidade. A partir de 1989, ano da eleição de Fernando Collor, já é exigida a maioria absoluta dos votos. Caso o candidato não alcance [ao menos, a metade mais um], disputa o 2º turno. A segunda diferença é a expansão do eleitorado. Incluímos os analfabetos como eleitores. Isso ampliou bastante o eleitorado, tornando a dinâmica bastante diferente daquele momento anterior. Por fim, antigamente havia três partidos grandes – o PTB,  o PSD e a UDN – esses dois últimos tinham mais capilaridade. Quando ocorre a intervenção já no governo militar [após o golpe de abril de 1964], o PTB começava a se expandir para o interior. No período após a redemocratização, há uma capilarização maior, a política é nacional e mais fragmentada do que naquele momento.

 

Agência Brasil: Que impacto teve a adoção do voto eletrônico?

Felipe Borba: O voto eletrônico teve efeito muito forte sobre o percentual de votos brancos e nulos, que diminuíram. A queda aconteceu drasticamente na virada da eleição de 1998 para a eleição de 2002. Em 1998, o voto eletrônico ainda não havia sido adotado universalmente, mas em 2002, sim.

 

Agência Brasil: Como avalia as mudanças na legislação eleitoral?

Felipe Borba: A mudança na legislação eleitoral para este ano é problemática em alguns pontos. Primeiro, diminuiu muito o período de campanha. E diminuiu muito também a quantidade de minutos da campanha eleitoral no rádio e na televisão. Ao mesmo tempo, ela alterou a regra de distribuição do horário de propaganda entre os candidatos. Até 2014, vigorava a regra na qual até um terço da propaganda era distribuída igualmente entre os candidatos e dois terços proporcionais aos partidos e coligações na Câmara Federal. Na verdade, o que essa legislação proporcionou foi uma cartelização: poucos partidos conseguem ter tempo de televisão. Nessa campanha, teremos [Geraldo] Alckmin [PSDB], o candidato do PT e o candidato do MDB, [Henrique] Meirelles com tempo para poder falar, enquanto os demais candidatos terão pouquíssimos segundos. Cria uma desigualdade muito grande entre os candidatos. Do ponto de vista da democracia é ruim porque impede a discussão do país. Como candidatos com cinco, sete, doze segundos vão se apresentar para o eleitorado e mostrar suas propostas? Do ponto de vista eleitoral, [a nova legislação] dificultou muito a competitividade dos pequenos partidos e, do ponto de vista da democracia, dificultou muito a discussão de políticas públicas.

 

Agência Brasil:Teremos de fato o fim da hegemonia da televisão?

Felipe Borba: Ainda é muito cedo para dizer que veremos o fim da hegemonia da televisão. A capilaridade da televisão ainda é muito grande. Há pesquisas que mostram que 95% dos brasileiros assistem televisão e boa parte assiste diariamente. A televisão ainda é a principal fonte de informação e de entretenimento. Mas ela começa sim a sofrer competição das redes sociais e das mídias sociais. Até porque, como dissemos, a propaganda na televisão diminuiu. As mídias sociais podem ser uma forma de contrabalancear essa falta de espaço na televisão. O que reforça o peso da televisão é que, em geral, as campanhas eletrônicas tendem a circular dentro de uma mesma bolha. Entre pessoas parecidas, entre pessoas iguais. Não rompem barreiras sociais como a televisão, que entra na casa da pessoa durante o intervalo do programa que está assistindo, e ela acaba vendo a propaganda de um candidato que não estava disposta a ver inicialmente. Com a mídia social, como os grupos de WhatsApp, há mais a tendência de reforçar do que alterar as predisposições.

 

Agência Brasil:  A eleição que ocorrerá em outubro de 2018 será muito diferente das estudadas por vocês nos últimos 25 anos?

Felipe Borba: Elas são semelhantes em muitos sentidos porque dois partidos polarizaram a disputa. Com exceção da primeira eleição, que tivemos Fernando Collor presidente, de 1994 até 2014, PT e PSDB disputaram a hegemonia política. O que pode ter de novo é que essa polarização pode, enfim, ser enterrada ou, pelo menos sufocada momentaneamente. Existe muita incerteza neste pleito. Até agora, o [Geraldo] Alckmin não conseguiu decolar como candidato; é possível que esse nicho da centro-direita seja ocupado pelo [Jair] Bolsonaro (PSL). Ao mesmo tempo, existe uma incerteza muito grande se o PT estará no 2º turno – dada a condição política do ex-presidente Lula e transferência ou não de votos para o [Fernando] Haddad (vice de Lula). A expectativa ainda é que PT e PSDB possam se enfrentar no 2º turno, pela capilaridade que os dois partidos têm, pela estrutura, pelos recursos de campanha, tempo de televisão, militância política que podem levar ao partido.



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